Resenha de Roma


Classe média na Cidade do México. É no bairro-título que se passa a história de seu novo longa, inspirado pelas memórias de infância do diretor, mas abordado a partir do ponto de vista da empregada da família.

Cleo (Yalitza Aparicio) e, consequentemente, da família a que ela serve. A complexa relação de hierarquia entre patrões e empregados, que se confunde com o conceito de família. Além dos acontecimentos de âmbito familiar e até escala nacional, que moldam os caminhos dos personagens.

Com um ritmo propositalmente mais lento. Cuarón nos deixa observar calmamente as interações cotidianas, com planos longos e pouca movimentação de câmera. O que nos possibilita pensar sobre a situação que estamos vendo, tão comum ao redor do mundo.

Na ingrata função de empregada, sempre de prontidão para servir, a moça quase não tem tempo de viver a própria vida. E não parece incomodada com isso, ou talvez apenas não enxergue perspectivas em seu futuro. Ela não sabe como evoluir a partir dali. Já os patrões, se sentem benevolente por considerá-la como "parte da família", sem nunca perceber que mantém a moça em um horário de trabalho constante. Ou ainda que suas ações "altruístas" em relação á moça, são mais benéficas ao seu ego, que à pessoa ajudada. Mas não os confunda com vilões, estas são boas pessoas, que apenas não enxergam a totalidade do sistema em que estão inseridas.

Abandono da figura masculina, aqui retratados como fracos, cheios de vontades, e acreditando serem mais do que realmente são. Situação enfrentada ao mesmo tempo por Cleo e por sua patroa Sra. Sofía (Marina de Tavira), que poderia aproximar as duas, se ambas percebessem estar em situação semelhante. Percepção que as duas em seus cotidianos opostos, ainda que fisicamente próximos, são incapazes de ter.

Até que em alguns momentos, a vida exija, ou cause uma reação maior da moça. E mesmo em sua catarse, ela é contida. É apenas momentos de maior emoção que o diretor movimenta mais a câmera, mesmo que forma sutil e fluida, encaixando bem com o tom contemplativo do resto do longa.

O longa não esconde o fato, de que o diretor está olhando e repensando a própria infância. Por este tom mais biográfico, faz todo sentido que além de direção e roteiro, Cuarón também tenha feito a fotografia, produção e até colocasse seu dedo na edição. Talvez seja esse controle quase excessivo, que permitiu ao diretor embutir no longa todas as camadas e detalhes que desejava, sem deixar pontas soltas. O detalhismo vai desde a escolha do gigantesco carro do patrão, que mostra o quanto ele se sente desnecessariamente sufocado pela família. Até a passividade de Cleo, mesmo em seus dias de folga, quando finalmente pode escolher o que fazer.

Não é possível dizer, no entanto se a estreante interprete da protagonista é realmente uma excelente atriz, ou se foi escolhida à dedo para o papel. De qualquer forma, seu trabalho aqui é excepcional, abrangendo todas as nuances desta protagonista, que poucas chances tem de protagonizar a própria vida.

Dispostas a se aventurar, em um filme de ritmo diferente, em preto e branco, falado em espanhol e mixteco, o dialeto do povo de Cleo. Falando assim até parece tarefa complicada, mas aqueles que se dispuserem a acompanhar esse ano na vida de uma família comum, vai ter a chance de ver com outros olhos uma história que se repete em todo o mundo. E quem sabe repensar suas próprias experiências.

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