CONFIRA

Carolin Emcke A pandemia é uma tentação


Prêmio da Paz da Feira do Livro de Frankfurt. Contra o Ódio e Modos do Desejo [ambos sem edição no Brasil] são dois de seus livros publicados na Espanha. O primeiro é uma reivindicação humana e filosófica contra a tentação autoritária que se serve de velhas bandeiras racistas e patrióticas. Um de seus temores é que a atual pandemia alimente esse rescaldo de ódio. Ela mora em Berlim. Esta entrevista ao EL PAÍS foi feita por e-mail.

A pandemia é uma tentação autoritária que convida à repressão, à vigilância totalitária baseada em dados digitais, à regressão nacionalista. Ou ao cálculo darwinista que coloca um preço na perda dos corpos mais velhos, mais frágeis e menos treinados. Será decisivo poder demonstrar que as sociedades que saírem menos prejudicadas da crise serão aquelas que possuem um sistema de saúde pública, aquelas cujas infraestruturas sociais não foram privatizadas e corroídas por completo, poder provar que a solidariedade e o cuidado mútuo serão os que triunfarão sobre o vírus e não o estado de exceção e a privação da liberdade.

Humildade, mas também pudor: hoje, em Berlim, temos 50 mortos pelo vírus, em Nova York são 10.000. As imagens de Madri ou dos campos de refugiados nas ilhas gregas são praticamente insuportáveis para mim. Não vejo como poderemos pagar a dívida moral e política que estamos assumindo como alemães, como europeus, por não reagir com a necessária solidariedade, com a necessária humanidade. Implementar de má vontade uma série de instrumentos financeiros para os países do sul em vez de lançar coronabônus para a Europa me parece uma idiotice mesquinha e imperdoável. E isso falando apenas do contexto europeu.

Não poder se despedir, medo das penúrias, de perder o emprego, medo do colapso existencial. Mas a perda de soberania não é compensada com a estigmatização ou a humilhação dos outros. Como se a impotência fosse menos sentida se se maltratasse os marginalizados ou o próprio casal. Não é apenas a xenofobia a que se recorre como compensação da insegurança individual ou social, também se intensifica a misoginia, a violência contra as mulheres.

Afetam nossa sociedade. Ficou evidente que não se pode negar a realidade, que existem limites à manipulação do discurso, ao delírio narcisista, à mentira política. Ninguém é invulnerável, ninguém é intocável, mesmo que Trump ou Putin queiram negá-lo. A hostilidade à ciência dos populistas está se voltando contra eles e lamentavelmente o preço será pago por seus eleitores. Também está ficando evidente que o Estado não pode se retrair infinitamente de sua responsabilidade, que há falta de infraestruturas públicas, bens públicos, orientação para o bem comum. E, é claro, também um jornalismo sério e independente. Preocupa-me, acima de tudo, que o aprendizado que estamos fazendo, doloroso e amargo, caia no esquecimento quando tudo tiver passado. Que reconstruamos nossas sociedades com as mesmas injustiças, a mesma instabilidade.



FONTE: Brasil Elpais

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