CONFIRA

Na fronteira entre México e EUA fábricas


Cidade Juárez. Está morta. Ainda veste roupas de rua, malha com motivos cinza e uma camiseta. Chamava-se Gregoria, tinha 56 anos e trabalhava na Electrolux, uma fábrica maquiladora [expressão usual no México que designa empresas que importam materiais sem o pagamento de taxas e cujos produtos não são vendidos no país de capital norte-americano, que não interrompeu suas atividades apesar do decreto de emergência do Governo do México. Esses enormes galpões, com milhares de operários, estão espalhados por toda a fronteira entre os dois países e representam um dos mais temidos focos de contágio do coronavírus. Somente em Cidade Juárez existem cerca de 320 fábricas desse tipo, que empregam aproximadamente 300.000 pessoas. Muitas pararam as máquinas, mas algumas ainda resistem. Vão fechando por causa das mortes.

Seu corpo, no sábado, passou do carro da família para o veículo funerário, que foi em direção ao crematório. As autoridades sanitárias do Estado mexicano de Chihuahua não respondem sobre a transferência irregular do cadáver de um veículo para outro, em plena rua, sob um sol forte, com a ajuda do marido, que se cobre apenas com uma máscara fina. Todos sabem que a covid-19 a levou. A funerária garante que tem o atestado de óbito. As filhas, também com máscaras, pedem à jornalista que se distancie delas. “Podemos infectar você.” No Facebook, outros dirão depois que toda a família está infectada e pedem uma oração por essa trabalhadora cujo retrato publicam. Na segunda-feira, centenas de operários protestam às portas de algumas maquiladoras para que cessem suas atividades e lhes paguem 100% do salário.

México em busca de mão-de-obra barata, quase escrava. Dos Estados Unidos chega a matéria-prima e para os Estados Unidos retornam as peças montadas: podem ser caixas eletrônicos de banco ou as entranhas de um computador, peças para veículos, aparelhos telefônicos ou a fiação de eletrodomésticos. Três turnos de oito horas cada um para não interromper a produção, nem de dia nem de noite, a 215 pesos por dia (cerca de 48 reais). Velhos ônibus pegam os operários em seus bairros e, lotados durante o trajeto, os deixam nas empresas e de volta a casa.

Direitos mais básicos, são presa fácil da voracidade empresarial e hoje estão mais expostos do que nunca, mesmo que o Governo tenha decretado o fechamento das indústrias. Se pedem para suspender as atividades, são ameaçados de demissão. Se, apesar de tudo, insistem em ficar em casa, conforme exigem com insistência as autoridades sanitárias e a televisão, a empresa lhes mostra um documento em que figura sua renúncia voluntária e eles assinam como cordeirinhos. São algumas poucas moedas das quais não podem prescindir. Ou recebem um bônus de 100 pesos vão passar a tarde em casa sem fazer barulho.

Edumex, onde 6.000 funcionários fabricam filtros, papa bolinhas e peças para eletrodomésticos. “Não assinem a renúncia voluntária! A Secretaria de Trabalho já disse que, enquanto a emergência nacional for estendida, as demissões serão nulas. Uma recessão muito forte está chegando, garantam o que é de vocês! Não assinem só para receber o cheque que eles mostram a vocês! Não sejam idiotas, não ouçam o que diz o pessoal dos recursos humanos, ninguém tem um documento dizendo que é permitida atividade na empresa. É fácil dominar vocês, mas acreditem em mim, se a empresa lhes mostrar um documento como esse, eles vão para a cadeia. Esse papel não existe.” Susana Prieto, advogada ativista bem conhecida em Juárez, vai de uma empresa a outra, grava vídeos com seu celular e os publica nas redes onde já são vistos por milhares de seguidores. Ensina-os a pressionar legalmente a empresa, porque os trabalhadores mal distinguem um protesto na rua de uma greve. “Organizem-se, criem um grupo de WhatsApp, usem os telefones para o que eles servem!”. A união faz a força é uma frase com pouca profundidade nesses galpões.

É uma avis rara. As maquiladoras são a paisagem que os pais e os filhos veem aqui, e a mesma que os netos verão. O elevador social está bloqueado. E o coronavírus não vai contribuir para mudar isso. Muito pelo contrário. “No México se herda em boa medida a condição de origem. E quem a supera não vai muito longe na escada social. Se você nasceu do lado errado da escada, um choque epidêmico como esse só aumentará a imobilidade social”, diz Roberto Vélez, diretor-executivo do Centro de Estudos Espinosa Yglesias.



FONTE: Brasil Elpais

Postar um comentário

0 Comentários