CONFIRA

Não comam pastilhas de detergente


A gozação geral se deve à última incursão de Donald Trump nas tempestuosas águas da ciência. Na quinta-feira à tarde, em sua entrevista coletiva diária sobre a evolução da crise do coronavírus, o presidente se perguntou se não seria uma boa ideia injetar desinfetante no corpo dos pacientes de covid-19 ou expô-los a uma “tremenda luz ultravioleta”, dada a eficácia de ambos na hora de liquidar o agente patogênico fora do organismo.

E até a empresa Reckitt Benckiser (RB), fabricante de populares produtos de limpeza e desinfecção como Lysol e Dettol, emitiu um comunicado desaconselhando experimentos do gênero: “Devido à recente especulação e atividade em redes sociais, alguns perguntaram à RB se a administração interna de desinfetantes pode ser apropriada para a pesquisa ou seu uso como tratamento para o coronavírus. Como líderes globais em produtos de saúde e higiene, devemos deixar claro que sob nenhuma circunstância nossos produtos desinfetantes devem ser administrados no organismo humano, seja por injeção, ingestão ou qualquer outra via”, diz o comunicado.

Cidadãos para lhes pedir que não bebam desinfetante, depois de terem recebido mais de 100 chamadas perguntando sobre seu possível consumo como tratamento para a covid-19. “Este é um aviso de que sob nenhuma circunstância nenhum produto desinfetante deveria ser administrado no organismo, por ingestão, injeção ou qualquer outra via”, tuitou a agência de emergências, sem citar detalhes sobre qual seria a “outra via” possível.

Um aviso para todos os norte-americanos”, dizia na manhã desta sexta pelo Twitter. “POR FAVOR, sempre consultem seu profissional de saúde antes de se administrar qualquer tratamento ou medicamento a você ou a um ser querido”. Ainda mais explícito foi o serviço de emergências do Estado de Washington (Costa Oeste), em sua advertência divulgada pelo Twitter na noite de quinta: “Por favor, não comam pastilhas de detergente nem se injetem nenhum tipo de desinfetante”. O virtual rival de Trump na eleição presidencial de novembro, o democrata Joe Biden, não deixou a oportunidade escapar. “Não posso acreditar que tenha que dizer isto, mas, por favor, não bebam água sanitária”, tuitou.

Para quem precisa escutar isto esta noite: os produtos usados para matar diretamente vírus e bactérias normalmente matam células humanas saudáveis também”, dizia no Twitter o médico toxicologista Ryan Marino, dos hospitais universitários de Cleveland. “Por favor, não façam isso. Atentamente, todos os toxicologistas”, tuitava o professor de Harvard Bryan D. Hayes. “Injetar-se ou ingerir qualquer tipo de produto de limpeza”, recordou o pneumologista Vin Gupta na NBC, “é um método habitual para as pessoas que querem se matar.

Kayleigh McEnany, tentou contestar as críticas na sexta-feira. “O presidente Trump diz repetidamente que os norte-americanos devem consultar médicos sobre o tratamento do coronavírus, algo que enfatizou de novo durante sua coletiva de ontem. São os meios de comunicação que irresponsavelmente tiram o presidente Trump de contexto e publicam manchetes negativas”, afirmou.

Jornalistas que estava fazendo uma brincadeira. “Formulava a pergunta de maneira sarcástica aos jornalistas como vocês, só para ver o que acontecia”, disse. Mas nem o contexto nem o tom parecem corroborar a versão oficial oferecida a posteriori.

Bill Bryan, diretor da Divisão de Tecnologia e Ciência do Departamento de Segurança Nacional, fez uma exposição sobre determinadas medidas para evitar a propagação do coronavírus. “Dito isso, suponhamos que você leva essa luz para dentro do corpo, através da pele ou de alguma outra maneira. Depois vejo o desinfetante, que nocauteia [o vírus] em um minuto – há alguma maneira de que possamos fazer algo assim mediante uma injeção? Porque a gente vê que entra nos pulmões e causa um dano tremendo nos pulmões, então seria interessante testar.

Científico em seus pronunciamentos aos cidadãos. Já disse que o vírus desapareceria “milagrosamente” com a chegada do calor, deu trela apressadamente a hipóteses científicas não contrastadas, e os perigos são evidentes. Um homem já morreu em março no Arizona ao se automedicar com uma substância para aquários que contém hidroxicloroquina, o mesmo princípio ativo que o fármaco contra a malária cujo uso contra o coronavírus, não respaldado pela ciência, o presidente promoveu alegando que “não há nada a perder.


FONTE: Brasil Elpais

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