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Renda na América Latina pode sofrer


Que se previa até agora. A América Latina, de Tijuana a Ushuaia, pode sofrer uma contração da renda entre 11% (num cenário “demarcado”, com confinamentos de oito semanas e recuperação mais ou menos rápida da demanda interna) e 22% (sob “confinamento prolongado”, em torno de 12 semanas, e maior tensão das condições financeiras) no acumulado de 2020 e 2021, segundo uma simulação do Banco da Espanha a partir de dados próprios, do FMI, da Consensus Forecasts e da Thomson Reuters. As cifras, porém, estão notavelmente acima do projetado até agora por organismos como o próprio Fundo Monetário e o Banco Mundial e têm como ponto de partida o crescimento do PIB previsto para a região antes que a pandemia redefinisse o conceito de “normalidade”, tanto no aspecto humano quanto no econômico.

Retrocesso de 6,5% a 11,5% no PIB regional, o maior desde o início dos registros, e que faz empalidecer o 5,2% que o FMI projetava há apenas duas semanas e o 4,6% do Banco Mundial. Esses números já são papel molhado, com um retrocesso maior que o esperado para a economia mundial, “em parte porque a projeção de crescimento antes da pandemia era inferior nas economias latino-americanas e, em parte, porque o canal da contração da demanda interna – o mais significativo – é mais pronunciado nestas economias, por estarem mais fechadas aos intercâmbios de bens e serviços que a média mundial”. O que não muda é a data orientativa em que se começará a ver a luz no final de um túnel que não estava em nenhum mapa: na “ausência de novos surtos da epidemia mais adiante", a economia global (e, com ela, a latino-americana) começará a se recuperar no segundo semestre deste ano.

Perturbação ainda é muito incerto”, observam os técnicos do Banco da Espanha. Mas já começam a se vislumbrar alguns traços que acompanharão a América Latina (e o mundo) nos próximos meses: menor comércio internacional, com as matérias-primas, das quais tanto depende a América do Sul, no olho do furacão; fluxos turísticos claramente em baixa; tensões em mercados financeiros submetidos a uma pressão inédita desde a Grande Recessão de uma década atrás; contração abrupta da demanda interna, “que está se refletindo em um menor consumo dos lares e em um retrocesso do investimento empresarial”; e efeitos negativos sobre a oferta pela interrupção forçada da produção em vários setores. “Além disso, a incerteza sobre as perspectivas pode reduzir o consumo e o investimento além do horizonte mais imediato, levando à destruição de empresas e postos de trabalho, a um aumento das dívidas e ao endurecimento das condições de financiamento de alguns agentes, o que pode retroalimentar um círculo vicioso e elevar a persistência da crise”.

Menor que outras regiões, os países latino-americanos estão, em geral, menos expostos às vicissitudes do exterior. Entretanto, o grau de vinculação das economias que são muito dependentes de outros países (o México em relação aos Estados Unidos; Chile, Peru e Brasil em relação à China) é enorme, com encadeamentos produtivos que se complicam em tempos como estes, nos quais muitas cadeias de valor saltaram pelos ares. A isso será preciso somar a evolução negativa das matérias-primas – entre elas o petróleo, sim, mas não só –, das quais a América Latina exporta mais do que importa, e cujo preço tem caído drasticamente desde a irrupção da pandemia, partindo de níveis já inferiores à média histórica, segundo os dados reunidos pelo Banco da Espanha. E do turismo, uma atividade que foi atingida abaixo da sua linha de flutuação pela crise do coronavírus, e que tem uma importância relativa sobre o PIB latino-americano notavelmente superior ao que ocorre no resto de emergentes.

A América Latina sai de uma situação mais delicada que o resto das economias emergentes e avançadas para enfrentar a pandemia”, salientam os técnicos do Banco da Espanha, que recordam que já na segunda metade de 2019 duas das três grandes potências da área (México e Argentina) tinham entrado em números vermelhos, e que “o crescimento da região continuou sendo muito fraco como consequência do baixo dinamismo da demanda interna”. A América Latina já era, desde muito antes da crise sanitária, uma ilha de baixo crescimento num mar emergente que também começava a dar sinais de esgotamento.



FONTE: Brasil Elpais

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