CONFIRA

Choque de amor tratamento para mães



Cabaninha feita pelas crianças com todas as cobertas e almofadas existentes na casa, quando o interfone tocou o que, no meio de uma quarentena, é sempre um susto e tanto. Os meninos gritaram, eu saí correndo.

Eu, sem ideia de qual é o novo protocolo de amor e de educação ao interfone nestes tempos pandêmicos, só pude recorrer ao velho,Abro pra você subir.Ela disse que não, que eu abrisse só pra ela colocar uma coisa no elevador, que eu deveria pegar aqui no meu andar.

Cara de louca, abri o elevador e vi uma sacola cheia de coisas deliciosas junto a uma flor com um recado sobre eu ser a melhor mãe do mundo ou algo assim. Batimentos acelerados, lágrimas nos olhos, boca de palhaço só que virada pra baixo. Choque de amor.

Minha mão e levaram pra cozinha. Enquanto isso, eu, atrapalhada, procurava meu celular pra gravar uma mensagem de agradecimento pra minha irmã.

Com dois brigadeiros na boca e o outro abriu um chocolate de 500 gramas e já estava na metade. Não tive tempo nem de olhar o que tinha dentro da sacola. Minhas lágrimas de emoção viraram mandíbula travada de raiva em milésimos de segundo.

Passo de safanão e sentei pra chorar, agora sim, com gosto.

Sabem, claro, que estou fechada em casa há oito semanas com meus dois filhos, só nós. É uma loucura. Mas, vejam bem, não é uma loucura diferente da de todos os dias. Só é em dose concentrada. Minhas dificuldades e defeitos escancarados nesses 50 e tralalá dias são os de sempre, assim como minhas vantagens e talentos pra vida, doméstica e em geral.

Maravilhosos que os seus filhos têm a pachorra de roubar de você. Arrumar a casa tomando uma taça de vinho (no meu caso), levar esculacho no homeschooling dia sim, dia também, e achar importante fazer lição junto. Beijar com gosto os filhos que você, dois segundos depois, quer trucidar.

A que quer trucidar, mas no fim não trucida. A que leva resposta atravessada e range os dentes, engole o sapo, e ainda acha barato. A que faz, porque tem que fazer, caramba. Que conta com a ajuda, de onde ela vier, porque precisa, mas que não delega não espera a iluminação do outro. Ser mãe é não esperar ninguém dar o primeiro passo.

Esteve ao meu lado quando o bicho estava prestes a pegar. Confio nela por algumas encarnações. Desconheço o gosto de seu bolo de fubá, se é que um dia ela já fez um, e dela não obtive só palavras moles. O mesmo vale para a minha vó Alice, cuja máxima “quem tem mãe, não tem medo” guia minha vida.


FONTE: Brasil Elpais

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