CONFIRA

Ideólogo do Brexit provoca a pior crise



Sua recusa em manifestar qualquer remorso por ter violado as regras do confinamento contra a pandemia provocou um vendaval político que pode deteriorar irremediavelmente o crédito político do primeiro-ministro, justo no momento em que sua popularidade se reduz e a opinião pública questiona sua errática estratégia de resposta à crise do coronavírus. O Reino Unido é hoje o país europeu com maior número de mortos pela covid-19.

Assessor-estrela e confirmá-lo no cargo. Cummings, segundo Johnson, “tinha seguido os instintos de qualquer pai e agido de um modo razoável, legal e íntegro”. Uma investigação conjunta dos jornais The Guardian e The Daily Mirror revelou no final de semana que no fim de março o assessor viajou com sua mulher e seu filho de quatro anos para o imóvel dos seus pais na localidade de Durham, a 400 quilômetros de Londres. Sua esposa, a jornalista do semanário conservador The Spectator, tinha desenvolvido sintomas severos da covid-19. Ambos consideraram que o mais sensato seria se isolarem durante duas semanas em uma moradia contígua à de seus pais, para que suas sobrinhas adolescentes pudessem tomar conta do menino. “As regras estabelecem claramente que, quando se trata de crianças pequenas, estamos falando de circunstâncias excepcionais, e acredito que meu caso era uma circunstância excepcional”, disse Cummings nesta segunda-feira.

No jardim traseiro da residência oficial do primeiro-ministro, sentado em frente a uma pequena mesa improvisada, leu um comunicado prévio com a confiança de que, uma vez contada sua versão do ocorrido, as águas se acalmariam. Contou que sua mulher havia lhe telefonado, a ponto de desmaiar, para lhe avisar que estava com covid-19. Não tinham ajuda em Londres para cuidar do filho. Então ele dirigiu sem parar e chegaram à noite ao sítio dos seus pais. Comunicou-se com eles aos gritos, quase a 50 metros de distância. “Não me arrependo do que fiz. Foi razoável nas circunstâncias em que me encontrava”, insistiu Cummings frente a cada pergunta sobre seu possível remorso.

O senhor Cummings já deu suas explicações, e acredito que chegou a hora de a opinião pública tirar suas próprias conclusões sobre o assunto”, declarou o primeiro-ministro, irritado, sem dissimular a vontade de apressar o fim da coletiva. “É claro que não posso dar meu apoio incondicional a nenhum membro de minha equipe, mas acredito que ninguém cometeu uma ilegalidade”, disse Johnson. Deixava assim uma porta aberta para caso o escândalo não se dissolva e seja necessário adotar outras medidas.

Mas dificilmente poderá se queixar alguém que deixou um rastro de incontáveis inimigos políticos pelo caminho, e num momento em que a paciência da opinião pública britânica está no limite. O assessor de afamado olfato político para detectar o estado de ânimo da sociedade foi incapaz de entender que, às vezes, a demissão não é justa ou injusta, e sim necessária para proteger seu superior direto, neste caso Johnson. “Há muita insatisfação, mas acho que se baseia nas informações publicadas na mídia, que não são corretas. E é bastante lamentável que, depois de advertir a esses meios que algumas das coisas que estavam contando não eram verdade, continuaram a contá-las”, tentou explicar Cummings.

Visto Cummings, sua mulher e seu filho passeando tranquilamente pelas paragens do Barnard Castle, a pouca distância de Durham, faziam ainda menos sentido depois de sua explicação. Contou Cummings que, passadas as duas semanas de confinamento e depois de consultar os médicos, decidiu que era o momento de voltar a Londres. Mas ainda duvidava do seu estado de saúde, uma vez que teve problemas de visão durante o período de isolamento. Então sua mulher e ele decidiram fazer um teste prévio e sair de carro com o filho durante meia hora, para então estacionar e passear tranquilamente pela beira de um rio. Nesse momento, as recomendações oficiais proibiam as viagens não essenciais, e sair de casa era permitido apenas para praticar exercícios ou fazer compras.

Hospital durante os dias de isolamento, comoveu os jornalistas. O menino deu negativo no exame do vírus. “Você não entende que muitos cidadãos, muitas mães ou pais solteiros, não dispunham dessa segunda residência segura? Não lhe parece um erro transmitir a ideia de que afinal fica a critério de cada um em que momento se pode ou não violar as regras?", perguntavam os jornalistas com insistência a um Cummings que manteve a calma, mas a todo momento dava a sensação de estar cansado de repetir uma explicação que, no seu entender, esclarecia tudo.

Prejudicado a estratégia comunicacional de crise com suas ações. A polícia de Durham iniciou uma investigação oficial sobre seus movimentos durante aqueles dias de confinamento. E o próprio Cummings acabou admitindo um único erro: não avisar Johnson da sua decisão antes de tomá-la. Àquela altura, o primeiro-ministro já tinha dado positivo e se encerrado na residência da Downing Street. Não achou conveniente incomodá-lo com esse assunto, nem imaginou na época que a doença se transformaria, dois meses depois, na maior crise política sofrida até o momento pelo Governo Johnson.

E o recriminaram pelo dano irreparável que causou à credibilidade do primeiro-ministro quando este mais a necessita. “No que estes dois estavam pensando?”, titulou nesta segunda-feira, junto a uma foto do primeiro-ministro e seu guru, o diário conservador The Daily Mail, o termômetro mais preciso do eleitorado médio dos tories. “As pessoas estão fazendo um enorme sacrifício para seguir a letra e o espírito das recomendações do Governo. Alguns não puderam acompanhar membros da família enquanto estes morriam. E agora vemos que há regras diferentes para gente normal e outras para a elite e para os que trabalham em Downing Street”, afirmou o bispo anglicano de Leeds, Nick Baines. Pelo menos uma dúzia de membros da hierarquia da Igreja da Inglaterra manifestou sua indignação com o escândalo, depois de se verem forçados a manterem as igrejas fechadas. Alguns chegaram a aventar uma futura rebelião dos clérigos, que não estariam dispostos a continuar colaborando com o Governo. E a polícia, que nos últimos meses precisou impor medidas incômodas para muitos cidadãos, anunciava seu temor de uma desobediência futura depois do exemplo de Cummings. “O que o primeiro-ministro fez ontem [ao defender a seu assessor] foi complicar muito a tarefa dos que estão na linha de frente obrigando a cumprir as medidas”, disse Mike Barton, ex-delegado-chefe da Polícia de Durham.


FONTE: Brasil Elpais

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