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Ouviremos muito governante dizer que abrirá leitos



Graves infectados por coronavírus. Desde o início da maior crise sanitária em décadas, vem atuando em diversas frentes.Atende pacientes no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e, por ser membro do conselho consultivo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), participou de reuniões com o Ministério da Saúde quando o Governo ainda desenhava uma estrutura extra para que o sistema de saúde público enfrentasse a crise. Setenta dias após a confirmação do primeiro caso da covid-19 no Brasil e quando o país já contabiliza mais de 125.00 casos e mais de 8.500 mortes pela doença Rezende diz que o Brasil conseguiu ampliar em 20% os leitos de UTI do SUS, mas acredita que essa capacidade de ampliação a partir de agora é mais limitada e esbarra na falta de profissionais especializados disponíveis. Em todo o país, gestores já contratam profissionais não especializados para atuar numa assistência intensiva. Numa conta difícil entre oferecer um leito de UTI com condições distantes da ideal ou não oferecê-los, Rezende define a situação como um “cenário de guerra”.

Escassez de UTIs. Já há filas por um leito desse tipo em pelo menos quatro Estados: Ceará, Amazonas, Pernambuco e Rio de Janeiro. A AMIB, da qual Rezende é membro, e outras entidades médicas desenvolveram um protocolo para ajudar os profissionais de saúde a decidirem quem terá um leito num cenário de escassez. Eles devem observar três pontos principais: gravidade, maior grau de sobrevida e capacidade de recuperação. “Nada é mais angustiante para quem trabalha em terapia intensiva que a perspectiva de ficar sem leito e ter que fazer a escolha de quem vai ter direito a um leito”, diz o médico. Na entrevista a seguir, Rezende avalia que o Brasil até conseguiu ganhar tempo e ampliar o sistema de saúde, mas tem falhado com o distanciamento social, medida fundamental para desacelerar a disseminação do vírus.

Digo isso sempre ressaltando que somos um país de dimensões continentais, então as coisas acabam sendo heterogêneas. Mais num lugar, menos em outro. Apesar disso, a gente tem duas questões que determinam o colapso no sistema de saúde. Uma é a tua capacidade de preparar e aumentar a disponibilidade de leitos. Essa parte da lição de casa eu acho que até que foi bem feita. A segunda são as medidas de contenção da curva para que não haja um aumento tão acentuado no número de casos num espaço de tempo curto. Infelizmente, a gente já tem vários Estados com suas capitais colapsadas, como Manaus, Belém, São Luís, Fortaleza, Recife. E agora a gente deve começar a ver o Rio de Janeiro e São Paulo nos próximos dias entrando em colapso na disponibilidade de leitos do sistema público de saúde. A gente fez um dever de casa razoável do ponto de vista de aumentar a capacidade, mas não fez um dever de casa tão razoável no isolamento social. E aí tenho duas críticas pessoais: às mensagens conflitantes passadas pelos nossos líderes políticos, que deixou a população confusa, e à própria população que não entendeu a importância do seu papel nesse processo. Esses dois aspectos prejudicaram muito a capacidade do sistema de saúde de reagir a essa demanda.

Quando você pensa no aumento da capacidade, você tem que criar o espaço do novo leito, isso é fácil. Você tem que conseguir equipamentos, e o principal deles é o de ventilação mecânica. Isso não é tão fácil, mas no geral se conseguiu. O terceiro aspecto, que é o mais difícil de todos, é você ter equipe. O profissional qualificado que atua na terapia intensiva, principalmente para cuidar de um paciente grave com a covid-19, é um profissional difícil de encontrar no mercado. O que tem sido feito na maioria das vezes é abrir novos leitos, mas sem a condição ideal. Sem uma equipe bem treinada. Estamos abrindo leitos com equipes com experiência limitada na área.

Conta de uma síndrome respiratória aguda grave. Essa condição requer um suporte para a respiração desse paciente. O pulmão perde a capacidade de fazer as trocas gasosas, de colocar oxigênio no organismo e retirar o gás carbônico. Pra isso, preciso de um ventilador artificial. Só que manusear esse equipamento requer conhecimento e habilidade porque, se você regula essa ventilação de maneira inadequada, você pode agravar a lesão do pulmão que já é grave. O paciente precisa também ser mantido sob sedação, e a administração dessas drogas também requer conhecimentos específicos porque são várias as complicações do seu uso inadequado. Essas coisas todas costumam sobrecarregar muito o coração e é comum que o paciente chegue na UTI com a pressão muito baixa. Todas essas estratégias requerem um cuidado minuto a minuto desses pacientes para garantir que tudo corra bem. Isso demanda uma equipe bem treinada, e os melhores resultados estão em locais mais organizados e com essa equipe bem treinada. Esses pacientes também são geralmente submetidos a uma manobra que se chama posição prona. Eles são colocados de barriga pra baixo porque a pneumonia do vírus acomete principalmente a região das costas dos pacientes, e essa é a melhor forma para que essa região receba sangue e seja oxigenada. Geralmente, esses pacientes ficam 16 horas nessa posição e recolocá-los em posição normal requer muito treino da equipe. É algo de risco porque esse paciente está cheio de cateteres, sondas e com um tubo. Se você tiver algum descuido nesse momento, pode ser uma condição de risco de morte para o paciente.


FONTE: Brasil Elpais

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