CONFIRA

Peregrinação de parentes. Dentro



Pública de pronto atendimento em São Miguel Paulista, um bairro pobre no extremo leste de São Paulo. Não deu tempo de muita coisa. “O médico falou: ‘Põe a cabeça aqui e dá um tchau’. Só o que pude ver foi o pessoal levando ele. Me entregaram o celular, as roupas. Ele ficou.”

Tempestade inflamatória violenta provocada pelo novo coronavírus que evoluíra em apenas dois dias,Sergio Gonçalves, de 38 anos e sem qualquer doença prévia, foi levado horas depois para o Hospital Municipal Tide Setúbal, referência para pacientes graves na região. Era na calçada do hospital que Gislene, agarrada à bolsa e driblando o frio do fim de tarde na cidade, esperava por notícias na última quinta-feira.

Na quinta, ela não teve alternativa que não pegar um ônibus de sua casa até o Tide Setúbal para saber do marido internado no dia anterior. Por uma exigência do hospital, os parentes devem peregrinar diariamente até lá, para às 17h terem um boletim dos pacientes uma orientação que contraria as normas do Ministério da Saúde, que recomenda isolamento por 14 dias para quem teve contato próximo com infectados. “Fico até assim de pegar ônibus... Estou usando álcool em gel, mas fico pensando em quem vai sentar ali depois de mim", lamenta. "Deixei meu filho de 14 anos, que também está com sintomas, cuidando dos meus outros dois. Não tive como trazer. Ele é asmático, grupo de risco. Vou dar para ele o mesmo que passaram para mim.

A maioria usava máscaras de pano, exibia semblante fechado. Do outro lado da calçada, Ana Claudia Fernandes, de fones de ouvido, cantarolava uma música gospel, apoiada num desnível na parede. Se Gislene começava agora seu périplo, a dona de casa Ana Claudia leva mais de um mês vindo ao hospital municipal todos os dias para saber do marido Danilo Fernandes, de 37 anos.

Antibióticos em casa quando teve uma piora repentina, uma das características mais perigosas da doença. Foi entubado às pressas em 30 de março. Ficou na UTI por longos 21 dias. “Às vezes você vem três dias seguidos e recebe só notícias boas. Aí no quarto deu uma piorada, depois melhora de novo. Olha, vou falar, é muito difícil", conta Ana Claudia. “Ela é uma guerreira,conforta a companheira de espera Paula Ferreira, que também aguarda notícias do marido o encarregado de limpeza Michel Duarte está há pelo menos 18 dias na UTI do Tide Setúbal. “Ele tem 29 anos. Não sabia que era hipertenso.


FONTE: Brasil Elpais

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