CONFIRA

Svetlana Aleksiévitch Na Bielorrússia vivemos



Assustada, doente e incapaz de se opor” quando é mandada às ruas para comemorar desafiando o perigo. É o que diz em Minsk a escritora Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura de 2015. Algo semelhante aconteceu em 1986 depois do acidente na usina nuclear de Chernobyl, diz a grande cronista daquela tragédia em uma entrevista por Skype ao EL PAÍS.

Bielorrússia como uma “sociedade adormecida”, qualificativo que diz ter cunhado depois de tomar o pulso dos círculos de oposição a Lukashenko: “Percebi que nossa sociedade é como alguém que dorme e não consegue despertar porque nem os músculos nem o cérebro funcionam”.

Dirigida por Lukashenko. Estamos diante de um sistema autoritário e de uma sociedade adormecida e atrofiada. A sociedade não foi treinada para a independência, nem para a crítica e a autoproteção e nem sequer desenvolve essas faculdades. A sociedade civil é apenas um embrião”, conclui a escritora.

Quarta-feira e Aleksiévitch permanece em seu apartamento com uma belíssima vista do lago no centro de Minsk. Às suas costas se adivinha o conforto de sua aconchegante cozinha. Ela confessa que sai pouco porque está no grupo de risco por causa da idade (completará 72 anos no final do mês) e devido à inflamação de um nervo que piora a cada primavera.

Emprego ou os conflitos com o poder; os pequenos empresários que não querem enfrentar, embora caminhem para a ruína por razões óbvias; os funcionários do Estado, toda essa gente que tem algo a perder”, afirma Aleksiévitch.

Ignorando os conselhos da Organização Mundial da Saúde, convocou um grandioso desfile no dia 9 de maio para comemorar o 75º aniversário do fim da guerra com a Alemanha nazista. O líder garantiu que ninguém seria obrigado a comparecer, mas outras vozes chegam dos centros de trabalho. “A realidade é que as pessoas não querem ir ao desfile e que organizações e fábricas foram informadas de quantas pessoas devem ir, por isso é um comparecimento ‘voluntário-forçado’. Não haverá um único convidado importante. É difícil saber o que Lukashenko pretende”, diz Aleksiévitch, e qualifica as comemorações de “espetáculo tragicômico que resultará em um novo surto do vírus”.

As clínicas estão cheias de contaminados. Outros pacientes não são atendidos, são mandados para casa. Mas a imprensa oficial esconde o que realmente está acontecendo”, diz. O número oficial de infectados pela covid-19 na Bielorrússia em 6 de maio é de 19.255, e o número de mortos, de 112 (cinco deles no último dia). A população do país é de quase 9,5 milhões de habitantes.

Existe uma psicose social aventada pelo presidente e pelos meios de comunicação”, afirma quando são mencionadas declarações de partidários de Lukashenko, como “nossa medicina pode derrotar qualquer um” ou “podemos desafiar o vírus como no passado desafiamos outros perigos”. Ocorre um desdobramento; por um lado, se cala e não se protesta, e por outro, tomam-se medidas de sobrevivência, opina. “A maioria das pessoas usa máscaras, não sai à rua, tira férias por conta própria e não deixa os filhos irem à escola”, diz. Neste último aspecto, as autoridades tiveram que ceder depois das férias de primavera. “Não puderam se impor, porque existem muitos filhos únicos e os pais não querem se arriscar”, enfatiza.

Partido Comunista convocaram os trabalhadores às manifestações do Primeiro de Maio. “É uma situação absolutamente no estilo de Chernobyl. Lukashenko foi à aldeia e brincou dizendo que não estava vendo o vírus, como muitos anos antes os dirigentes do partido pediam que lhes mostrassem a radiação”, afirma. “O que aconteceu com Chernobyl é o que acontece hoje, mas as pessoas não fazem a relação”, sentencia.

Conectar à nova realidade em que o mal, a morte e o perigo aparecem com outra roupagem”. “Mas aqueles que têm filhos doentes são capazes de gritar”, diz. “Em Vitebsk, a cidade mais infectada, acontecem coisas horríveis”, afirma, e lembra a morte do ator Victor Dashkévich, de 75 anos. “Lukashenko o humilhou dizendo que era velho e que deveria ter ficado em casa, porque a morte de um ator conhecido por coronavírus destruía o esquema que consistia em esconder as vítimas, atribuindo sua morte a uma pneumonia indefinida”, afirma.


FONTE: Brasil Elpais

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