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A Colômbia não participa de teatrinhos



Sobre a incidência do coronavírus e as medidas adotadas por seu Governo. O presidente da Colômbia foi um dos primeiros da região a tomar decisões drásticas para tentar conter a propagação da pandemia. No final de março fechou as fronteiras e decretou rígida quarentena, que ainda não acabou apesar da reativação de alguns setores. O país, com aproximadamente 50 milhões de habitantes, registrou 45.000 contágios e quase 1.500 mortes. Duque (Bogotá, 1976) se mostra otimista diante das perspectivas de recuperação econômica e acha que a covid-19 pode se transformar em uma oportunidade para melhorar.

Atender às outras urgências do país, que acaba de sair de uma guerra com as FARC e onde os assassinatos de líderes sociais não cessam. E se pronuncia sobre o escândalo de espionagem descoberto dentro do Exército, pelo qual por enquanto foram afastados vários oficiais e que motivou a abertura de uma indagação preliminar da Suprema Corte ao ex-presidente Álvaro Uribe. A conversa ocorreu antes de se saber que sua número dois, a vice-presidenta Marta Lucía Ramírez, atuou há 23 anos como fiadora de seu irmão, condenado por tráfico de drogas nos Estados Unidos. Duque a defendeu publicamente.

Esse tempo de tantas reflexões nos permitiu valorizar mais do que nunca o meio ambiente, a importância do setor da saúde, de todos os seus profissionais, o papel de nossos camponeses, os que produzem os alimentos das redes de abastecimento. Também nos permitiu refletir sobre nossa proximidade com os seres mais queridos, entender quantas conquistas poderíamos realizar com a virtualidade, com a tecnologia. Todo esse processo precisa nos servir para acelerar a história e acelerá-la para o bem, para que tenhamos um mundo mais sustentável, que motive muito mais o uso da tecnologia, no qual entendemos que também podemos ter mais qualidade de vida sem perder produtividade, trabalhando em casa, ficando mais tempo com nossos filhos.

Europa e da América Latina, quando verificamos o número de mortes por milhão de habitantes também temos números que estão muito abaixo. Quanto maior a quantidade de testes feitos, maior a quantidade de casos, mas o que é interessante é a positividade. A Colômbia tem uma positividade que está abaixo de 10% e a letalidade, em uma taxa de 3%. Isso não é uma concorrência entre países, mas nos permite ver como está o desempenho.

Pandemia virá, os casos aparecerão e sabemos que pessoas infelizmente irão falecer, mas o ponto é levar a uma situação em que não seja exponencial. A Colômbia chegou a essa pandemia com mais de 5.400 vagas de UTI. Além disso foi feita uma expansão natural de unidades de cuidados intermediários a UTIs que nos deixou com 6.300 no total, separando por volta de 3.000 para enfrentar a covid e nas próximas oito semanas devemos contar com aproximadamente 3.000 respiradores a mais. É sempre bom dimensionar: um país como a Holanda tinha 1.100 vagas de UTI, o Peru tinha menos de 1.000, o Chile tinha por volta de 1.300. Bogotá tem aproximadamente 1.000. Claro, tínhamos regiões vulneráveis, mas ainda assim enviamos 92 respiradores ao território colombiano. Continuamos ampliando a capacidade e fazendo medidas de cerco epidemiológico onde for preciso.

Sociedades, que são latinas, não podem ser comparadas com a disciplina que as sociedades asiáticas podem ter, que estão relativamente acostumadas a enfrentar surtos de vírus respiratórios e têm uma longa tradição de disciplina social, de distanciamento, até mesmo nas práticas de cumprimento. O grande desafio que temos é como adaptar essa nossa cultura, latina, mais festiva, mais calorosa, a um momento em que esse distanciamento físico e o uso da máscara são os protocolos que nos ajudam a salvar vidas.

O isolamento naturalmente muda comportamentos, mas nós vínhamos entre janeiro e março em um ritmo decrescente de criminalidade. O ano passado acabou com uma das taxas de homicídios mais baixas em mais de 40 anos. E a questão dos líderes sociais me preocupa muito, disse desde o dia de minha posse. Quem está matando os líderes sociais? O narcotráfico, o garimpo ilegal, os grupos armados organizados que querem continuar nutrindo-se desses negócios ilícitos. No ano passado fechamos com uma redução em assassinatos de líderes sociais. Eu não posso ficar contente com isso, é preciso reduzir a zero. Como? Enfrentando essas estruturas, realizando as mudanças sociais nas regiões. Em meio a essa pandemia fizemos a maior entrega maciça de escrituras de terras já realizada no país, mais de 5.000. E em outras frentes, em meio a essa pandemia tomamos decisões em termos de transparência, acompanhamento, dos sistemas de informação de compras públicos para que possa ser feito um escrutínio por parte da população e dos órgãos de controle do gasto público.

Dilema entre a saúde e a economia, e não vamos falar só de economia, falemos de desenvolvimento humano, social. Sem boa saúde não temos boa economia e bom desenvolvimento social, e sem desenvolvimento social e econômico não temos boa saúde. As duas coisas andam juntas. Quando alguns tentaram colocar a discussão de que os isolamentos preventivos são assassinos da economia, a resposta é muito evidente. Países que sequer abordaram essas medidas também tiveram quedas econômicas iguais e piores do que os que tomaram decisões responsáveis. Claro que isso traz consequências econômicas duras. Mas aí também está a resposta, criamos um programa de transferências de renda a quase 2,7 milhões de famílias vulneráveis por vários meses. 276.000 jovens vulneráveis, 1,7 milhão de idosos em condição de vulnerabilidade, a devolução do IVA (imposto sobre mercadorias) a um milhão de famílias, criamos um programa de renda solidária que chega a mais de três milhões que nunca tiveram um subsídio do Estado, subsidiar 40% do salário mínimo aos trabalhadores formais das empresas que tiveram mais de 20% de seu faturamento afetado durante quatro meses.


FONTE: Brasil Elpais

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