CONFIRA

A rotina sob pressão dentro de uma ambulância covid-19



Condutor Ricardo Vieira Lopes correm para se paramentar. Colocam máscara, gorro, luva e avental e logo seguem em uma ambulância básica para encontrar uma paciente de 37 anos que estava em uma clínica na qual costuma fazer hemodiálise, um tratamento para filtrar o sangue quando os rins não funcionam bem. A gravidade repassada pelo rádio não indicava necessidade de usar a estrutura mais sofisticada, com UTI móvel. Guireli e Vieira encontram a paciente cerca de meia hora depois do chamado no rádio, com um cateter de oxigênio e aparência cansada. Saturava a 87% quando o normal é acima de 95%. Eles entram na unidade de saúde com pressa, a envolvem numa estrutura que parece alumínio e a conectam em um pequeno cilindro de oxigênio para ajudá-la a respirar no trajeto. Logo depois a levam até a ambulância, onde voltam a avaliá-la. Observam a saturação, a temperatura e só então conseguem iniciar uma conversa difícil, entrecortada pelo cansaço dela e pelas barreiras impostas pela máscara especial, que protege os profissionais mas torna suas vozes pouco audíveis.

Febre e tosse seca, que vinha controlando com um antitérmico. Havia perdido paladar e olfato. “Está mais para positivo do que para negativo. Acho que é a covid-19”, diz o enfermeiro Guireli, de 51 anos, logo após deixá-la na unidade de pronto-atendimento onde faria novos exames para definir para qual hospital ela deveria ser encaminhada. Guireli atua no socorro há 22 anos. Começou como condutor no Resgate Voluntário de São Paulo, se formou enfermeiro e está na linha de frente da enfermagem do Samu há 10 anos. Acostumado a acompanhar principalmente casos de traumas, viu o perfil de seus pacientes mudar desde março quando a pandemia ganhou força no país. Santo André conta 2.330 casos confirmados e 130 mortes pela covid-19, uma pequena parte do que se vê no país, que neste domingo ultrapassou o meio milhão de casos, com 29.314 óbitos. Mas o município da Grande São Paulo viu aumentar em 20 vezes a busca de pacientes com sintomas gripais nos postos de saúde e nas unidades de pronto-atendimento nos últimos dois meses.

Diário a uma nova nova realidade. Equipamentos de proteção, assim como a função de desinfectar a ambulância a cada retorno de uma ocorrência, foram adicionados à rotina. “A gente já passou pela H1N1, pela dengue, mas essa doença agora é diferente. Acho que entrou na cabeça de todo mundo que luva, máscara e avental é obrigatório. Não tem mais jeito de trabalhar sem”, diz Guireli.

Respiratório mesmo quando os chamados não envolvem diretamente a suspeita de covid-19. Isso faz parte de um processo de triagem que, para os profissionais do Samu, começa na rua para evitar que pacientes que possam estar infectados tenham qualquer contato com pessoas com outras doenças que procuram as unidades de saúde. “A gente passa a ter um ouvido mais afinado, a prestar mais atenção em detalhes clínicos que te norteiam, como a respiração e a temperatura”, conta o enfermeiro. Aprender a decifrar a doença nova ainda é um desafio na ponta, quando pacientes apresentam sintomas diversos, vários deles comuns também em outras síndromes gripais. “A gente vai se especializando naquilo lá”, diz Guireli, já na base, enquanto se prepara para desinfectar a ambulância.

Se antes trabalhava apenas com o fardamento básico, agora precisa ser muito mais metódico para colocar e, principalmente, para retirar cada equipamento de proteção depois das ocorrências. É ainda na rua, após encaminhar o paciente, que a equipe borrifa álcool nas botas e em parte dos equipamentos após cada atendimento. Uma proteção necessária tanto para evitar afastamentos em uma importante força de trabalho no combate à pandemia quanto para proteger a própria família em meio ao risco de levar um vírus tão contagioso para dentro de casa.

Vieira precisa tirar parte do uniforme antes de entrar em casa. A roupa vai direto para a máquina de lavar. No trabalho, os colegas estão o tempo todo pesquisando técnicas e novos aparatos para tentar se proteger o máximo possível. Em uma emergência sanitária como esta, a ordem é tentar. Foi assim que os socorristas do Samu de Santo André desenvolveram com canos e plásticos uma espécie de cápsula para tentar trazer mais segurança aos profissionais ao entubarem pacientes graves. Ou adotaram pequenas soluções como o uso de plásticos nos compartimentos das ambulâncias para facilitar a desinfecção de cada insumo guardado ali dentro.

A gente escolheu isso, treinou.A gente estuda o tempo todo”, explica o enfermeiro Guireli. Assim como não cabe se envolver com os pacientes para não atrapalhar a tecnicidade que demanda a assistência deles, ainda que algumas histórias teimem em voltar à mente. Guireli lembra que perdeu um paciente de 47 anos, homem, que fazia exercícios físicos e parecia ter uma vida saudável. Relutante em procurar hospital, chamou o Samu quando já apresentava insuficiência respiratória. Chegou na unidade de saúde com vida, mas já não havia muito o que fazer. Morreu no mesmo dia em que foi socorrido. “Ele me chamou muita atenção porque era saudável,diz o enfermeiro.Essa doença é agressiva. E os pacientes apresentam sintomas diferentes dependendo da idade”, acrescenta.

250 profissionais que atuam nessas ambulâncias em santo André voltassem a ver a demanda se intensificar outra vez e voltar ao patamar anterior à crise com um novo perfil: a dificuldade respiratória imposta pela covid-19. “Os casos de suspeita de covid-19 e pedidos de transferência de pacientes vêm aumentando. Mudou o nosso perfil, porque agora temos menos traumas”, diz a médica reguladora Renata Rigo. Ela é uma das três profissionais que ficam em uma central monitorando tanto as características dos pacientes quanto os hospitais com vagas para saber para onde encaminhá-los. “Com base nisso a gente decide qual a ambulância que vai e se precisa que vá um médico ou só a enfermagem.

Coronavírus agora deixaram os finais das histórias das quais participam fragmentadas. É difícil acompanhar o desfecho de cada ocorrência em meio à grave crise sanitária. Acostumados a lidar com altas situações de estresse e treinados para serem ágeis diante da urgência, os socorristas dizem que chama a atenção a gravidade da covid-19 e a dificuldade de reanimar os pacientes que não procuram atenção médica antes de apresentarem um quadro grave.


FONTE: Brasil Elpais

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