CONFIRA

América não vê a saída para covid 19



Enquanto a Europa já estava sobrecarregada pela pandemia, na outra margem do Atlântico eram tomadas as primeiras medidas sem ter um horizonte claro. Depois de Milão e Madri chegaram Nova York, São Paulo e Guayaquil. Hoje os papéis se inverteram, embora a incerteza sobre o desfecho continue a mesma. A única certeza é que a emergência sanitária está longe do fim e não atingiu seu pico. E a América é agora o epicentro do vírus, enquanto começam a se registrar novos surtos na Ásia e em alguns países europeus. Os dados mais recentes indicam que a Índia é uma potencial bomba-relógio.

E a expansão da covid-19 ameaça uma região profundamente desigual. Do Canadá à Argentina, segundo dados oficiais proporcionados pelas autoridades locais, registram-se ao redor de 220.000 mortes e mais de quatro milhões de contágios, quase a metade do total do planeta. Esses números explicam as palavras de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. Segundo ele, o mundo se aproxima de uma “nova fase perigosa” com um horizonte pouco claro.

Debilidades estruturais, sobretudo no sul do continente. Cadáveres nas portas das casas na província de Guayas, no Equador; mortos na rua após serem rejeitados por hospitais na Bolívia; deslocamentos de milhares de pessoas sem trabalho, um fenômeno que ocorreu sobretudo no Peru, além dos mais de 75.000 venezuelanos que regressaram ao seu país ante a desproteção contra o coronavírus; centenas de casos de corrupção; falta de transparência e reiteradas mostras de irresponsabilidade, inclusive negacionismo, de alguns Governos como o de Jair Bolsonaro.

Fronteiras de forma contundente, como a Colômbia, ao se observarem os efeitos da covid-19 na Europa. Agora, a região tende a registrar uma das quarentenas mais longas do mundo. Inevitável, embora com consequências devastadoras em ecossistemas econômicos onde a informalidade no mercado de trabalho muitas vezes supera os 50%. O panorama foi descrito no final de abril pela epidemiologista colombiana Zulma Cucunubá, da Imperial College de Londres: a situação é de enorme incerteza, e todos têm diante de si caminhos não transitados.

Para todos, está claro que o novo epicentro é o continente americano, predominantemente os Estados Unidos, que se transformaram no país com maior número de casos (mais de dois milhões). Mas a América Latina provavelmente se tornará outro em breve, como já observamos em cinco países”, explicou ao EL PAÍS o infectologista.

O Peru está prostrado ante o coronavírus: os serviços de saúde estão sobrecarregados, e as comunidades rurais e os povos indígenas do Amazonas não conseguem enfrentar a emergência. Embora oficialmente os casos girem em torno de 250.000, no final de maio o Peru já era o país do mundo com mais excesso de mortes, 54% a mais que o habitual. O México nunca decretou um confinamento férreo e já superou os 20.000 falecidos. O Chile, com menos de 20 milhões de habitantes, tem mais de 230.000 casos. E a Colômbia, que conseguiu conter com estritas medidas de prevenção os estragos do vírus e registra cerca de 2.000 mortes, já empreendeu um caminho de reativação econômica que pode jogar por terra os esforços dos últimos meses. Na sexta-feira, o país andino celebrou “um dia sem IVA” (imposto sobre consumo) que multiplicou as aglomerações no comércio.

Chegará o pico do coronavírus. Para isso seria necessário poder realizar testes em todo mundo, e a humanidade teria que responder aos mesmos padrões de comportamento e prevenção. O caso da América Latina é, de certa maneira, paradigmático para ilustrar essa incerteza. “O que é particularmente preocupante? Há vários fatores”, prossegue Pérez Gómez. “Em primeiro lugar, muitos países não estão realizando o número suficiente de testes de laboratório PCR para a detecção oportuna da doença. Não realizar exames de laboratório suficientes gera incerteza nas cifras e, em segunda instância, dificuldade para interromper a cadeia de transmissão. Há países que estão na fase 3, onde o número de contágios comunitários por dia é contado aos milhares. Também é preocupante a prevalência de comorbidades. No México, 12% da população adulta tem diabetes mellitus, 35% tem hipertensão arterial e até 70%, sobrepeso e obesidade.

Em última instância, a desigualdade econômica, que em meio a essas circunstâncias corre o risco de desencadear uma tempestade perfeita.Isto é: acentuar as turbulências da região e limitar a capacidade de resposta dos governos. “A desigualdade tem muitos mecanismos através dos quais pode afetar o desempenho econômico. Há um imediato: o agravamento das tensões sociais”, afirma Juan Huitzilihuitl Flores Zendejas, professor do Instituto de História Econômica Paul Bairoch da Universidade de Genebra. “Essas tensões, típicas de países tão desiguais como os latino-americanos, se intensificam durante as crises econômicas. O que isso quer dizer? Que existem riscos de instabilidade política, porque há mais incentivos dos setores mais afetados pela crise para recorrer a canais não institucionais a fim de manifestar sua insatisfação, como já vinha sendo o caso antes da crise.


FONTE: Brasil Elpais

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