CONFIRA

Julio Berdegué da FAO Podemos ter um retrocesso



A América Latina e o Caribe representam 8,5% da população mundial e temos 17% dos contagiados oficiais [pela covid-19] em 2 de junho. Dos mortos, quase 14%. Os números são superiores ao que gostaríamos de ver”, afirma o subdiretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com sede em Santiago. Em conversa por telefone pois a capital chilena está sob quarentena total desde 15 de maio,Berdegué avalia que “as consequências econômicas e sociais, com foco na alimentação, são muito graves.

Caribe que são membros das Nações Unidas e da FAO. De 73 milhões de pessoas para 38 milhões. Foi uma época de crescimento econômico para a região e de uma decisão política muito forte dos Governos que puseram a questão da fome no centro: transferências condicionadas, fortalecimento dos programas de alimentação escolar, amparo social para os setores mais carentes de alimentos, apoio fortíssimo à agricultura familiar.

Estado na Assembleia Geral adotaram a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável o objetivo número 2 era fome zero,começamos a andar para atrás. Começa a cair o desenvolvimento econômico, muitos desses programas sociais se enfraquecem em muitos países, e em alguns têm início conflitos associados a uma deterioração da situação econômica.Tudo isso leva a um aumento importante na insegurança alimentar na região: 43 milhões de pessoas em 2018.

Não sabemos qual será a profundidade e, sobretudo, a duração da crise econômica. Se nos ativermos ao que existe: com uma projeção de queda de 5,3% na economia, a Cepal [agência da ONU para estudos econômicos latino-americanos] prognostica um aumento de 16 milhões de pessoas em condição de extrema pobreza em 2020 com relação a 2019. Se a Cepal passar de 5,2% para 6% ou 6,2%, de 16 milhões nos aproximaremos de 20 milhões de pessoas com algum grau importante de insegurança alimentar. Há uma altíssima correlação entre pobreza extrema e fome. E já começamos a ter algumas medições diretas.

Diminuiu a quantidade de alimentos consumidos habitualmente em seu lar? Para o total do país, 70% disseram que sim. Diminuiu a qualidade dos alimentos consumidos habitualmente em seu lar? 65% disseram que sim. Nos últimos dois meses, por falta de dinheiro ou outros recursos, alguma vez seu lar ficou sem alimentos? 36% dos lares peruanos disseram que sim. Nas zonas rurais do Peru, a primeira pergunta chega a 90% [de respostas positivas], a segunda a 90%, e a terceira a 59%.

Levam a estimar que em questão de semanas ou meses vamos nos aproximar dos 20 milhões de pessoas a mais em situação de insegurança alimentar.Ou seja, em meses podemos perder o que ganhamos em 15 anos, entre 2000 e 2014. Essa é a gravidade do problema.

Assunto junto com a Cepal: além das transferências monetárias gerais, é preciso fazer um esforço especial para as famílias que já estavam em condição de fome e de extrema pobreza antes da pandemia. Ponto dois: manter os programas de alimentação escolar e reforçá-los. Terceiro: existem grupos populacionais que não queremos que saiam à rua, por isso é necessária uma entrega de ajuda alimentar direta. Mas precisamos fazer isto numa escala de 60, 70, 80 milhões de pessoas em condição de fome ou em risco de cair na fome. O Estado sozinho não tem como fazer isso.

Nações Unidas, publicaram bem recentemente um relatório onde analisamos a situação de países onde há insegurança alimentar aguda ou crítica, e em nossa região há o Haiti, a Venezuela —que tem o maior número de pessoas nesta condição e três países do norte da América Central: Guatemala, Honduras e El Salvador. Finalmente, nos preocupa muito a situação dos migrantes venezuelanos na Colômbia e Equador.

Lorde inglês que recebeu o Prêmio Nobel da Paz pela fundação da organização John Boyd Orr dizia que “a paz não se constrói sobre estômagos vazios”. Então, por que deveríamos esperar que as pessoas não protestem se tiverem fome? O vírus nos empurrou para dentro de nossas casas, mas a fome pode tirar a população de suas casas e levá-las para a rua. A fome é um fator de instabilidade social e política.



FONTE: Brasil Elpais

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