CONFIRA

Ter um governante que não se dá conta



Agora, enquanto assiste às terríveis consequências da pandemia de coronavírus no Brasil, confia também em que a ficção, a narrativa, seja útil para confrontar um drama que a mítica personagem a quem ela deu voz superou graças à sua capacidade de contar para vencer a opressão e o esgotamento. Ela continua escrevendo. Sua última obra está prestes a ser lançada na Espanha e, embora esta seja sua principal tarefa, inventar, ela não deixa de se condoer pelo que ocorre em sua terra e no mundo. Disto falou por Skype, de sua casa no Rio de Janeiro, avisando ao repórter espanhol que “o Brasil vive um momento de rancor generalizado”, ao mesmo tempo em que exibe o que está à vista em seu escritório, “cheio de pilhas de papel, originais toda minha vida criativa está aqui dentro.

Tenho de adicionar à minha vida tudo o que está fora. O criador trabalha a partir do que existe e do que existiu. Sou uma mulher que acredita que só se pode ser contemporâneo se se for arcaico. Navego nas águas dos gregos, dos persas, das Américas e do mundo. Não faço uma distinção profunda de onde estou, quem sou ou de que época.

Sherazade combatia, falando para que a condenação não se cumprisse. Agora se vive uma condenação, e conversamos para que a noite não caia…

Celebração, mas cada vez que a humanidade fracassa seguimos em frente. Agora se fala da globalização, mas os vikings já começaram esse processo; e o fizeram os gregos com Alexandre, os bucaneiros ingleses do Caribe e os extraordinários globalizadores portugueses. Sempre foi assim. Todos abriram espaços para a globalização. O que acontece é que hoje vendemos nossa liberdade de indivíduos pátrios por objetos perecíveis sem nenhum valor. Não tenho medo, enfim, do dano que possa ocorrer, porque o pior já está ocorrendo.

Estamos preparados para sobreviver. É preciso que estejamos preparados para sair disto e tentar ver o que impede nossa sobrevivência. Por trás de tudo isto estamos vivendo uma explosão demográfica. A terra tem dificuldades para abraçar oito bilhões de pessoas. Ninguém quer ficar na África, ou na Europa, ninguém quer ficar onde está, sempre estamos procurando um lugar onde se possa assegurar a fortuna… Mais do que nos deslocando geograficamente, estamos nos deslocando em espírito, e nisto vejo insatisfação, necessidade, um infortúnio extraordinário. Como se não tivéssemos futuro, nos empenhamos em apagar os fatos do passado. O passado não se destrói, mas é preciso corrigir os desvarios do presente.

Os códigos que tivemos serviam a alguns, aos donos do código, aos que o escreveram e não aos que padeciam os horrores desse código. Desde a Bíblia, os códigos beneficiavam só uma parcela da população. Outros eram escravos da vontade alheia… O que vejo hoje é uma desunião que privilegia interesses próprios. A União Europeia demorou muito a ajudar; teve e tem medo da segregação, de que possam surgir outros Brexits. Assim como na América, não estamos unidos, há interesses.

A Itália nos advertiu: preparem-se. Quando a tragédia chegou à Espanha, imagine o que senti… Como isso podia acontecer na Europa? Supunha-se preparada para entrar no éden, no paraíso econômico e na justiça. As pessoas acreditavam estar sob as bênçãos de um deus econômico, poderoso. Eu me dava conta de que isto se arrastaria por todo o mundo, mas que semearia menos pânico. O pânico teve uma força poderosa, mais do que a pandemia, talvez. Veremos, porque há muitos mistérios, muito que não sabemos e muitas verdades que sairão dos laboratórios farmacêuticos, porque não nos dizem o que está acontecendo.

Abalados, o mundo inteiro está assustado. Agora, além disso, assusta essa palavra espanhola, brote [surto]. É impressionante seu sentido simbólico. O surto está estabelecendo nossos limites. A partir de agora não temos liberdade, porque somos vítimas do próximo surto. Não se pode gozar sob a tutela do surto.

Está acontecendo no mundo é uma enorme tristeza. Os fracassos que chegam de Brasília nos educaram há muito tempo para o sofrimento. É como se se pudesse esperar o pior de Brasília. É um câncer que começou há muito. Chego à conclusão de que as administrações se impõem a favor de seus interesses e não dos do povo. Sinto um profundo descrédito do poder, como o que agora vive o Brasil.

Sai na televisão do que o que se fala em um livro. O Brasil se volta para os seus próprios interesses com uma visão paroquial. Hoje não tem grandes políticos, grandes oradores, personalidades em quem confiar, que expressem as necessidades reais. No meu entender, os políticos são um fracasso. Como intelectual, percebo minhas limitações, mas sei que meu dever é continuar criando, escrevendo. Meu dever como intelectual brasileira é continuar produzindo livros; tendo à independência total, estética, moral, sem medo da histeria.


FONTE: Brasil Elpais

Postar um comentário

0 Comentários