CONFIRA

Joke Hermsen O desafio diante de nós é transformar

                                          

Separados de nossos amigos, companheiros e familiares. Não foi um retiro escolhido voluntariamente por nós, como longas férias de meditação em algum complexo “zen” de luxo. Nós nos limitamos a obedecer à firme exigência de nossos Governos, que estavam tentando manter a pandemia sob controle.

Olhando um céu de um azul pungente sobre as casas. Nunca havia sentido um contraste tão nítido entre esta primavera vital e florescente e mais uma série de estatísticas trágicas apresentadas nos noticiários. Lá estávamos nós, em pleno despontar de vida reluzente, cercados pelo anúncio de tantas mortes. Ficamos lá dentro e esperamos, às vezes nos perguntando o que estávamos esperando: o fim do confinamento? A próxima crise? Ou talvez a oportunidade de mudar.

Forçado imposto por um poder invisível, o vírus, que nos atemoriza e nos faz sentir inseguros em relação à nossa vida, porque não sabemos quanto tempo durará nem como vencer seus perigos. Isso nos assusta, nos preocupa, nos impede de dormir e, o pior de tudo, poderia transformar nossa natureza melancólica em um estado depressivo crônico.

Essa consciência pesa sobre nossos ombros e, ao longo dos anos, aprofunda nossa melancolia. Se muitos medos e inseguranças pairam sobre nós, nossa melancolia costuma se tornar tão escura como a “bile” grega que lhe dá nome: melan-chole, profunda e abatida. No entanto, por sorte, também sabemos como lidar com essa melancolia e “iluminá-la” com a música, por exemplo, ou com histórias, ou com uma expressão de amor. Em outras palavras, temos de torná-la “criativa” a fim de traduzi-la em “tristeza com um sorriso”, como disse Calvino, e não em depressão.

Tem sido extremamente difícil encontrar alguma esperança. Portanto, existe o perigo de que grande parte da população fique deprimida, o que é um problema de saúde muito grave, sobretudo se combinado com a solidão, como demonstraram pesquisadores famosos como Trudy Dehue, da Holanda, e Stephen. Houghton, dos Estados Unidos. Como consequência, não temos escolha a não ser continuar a buscar novas fontes de esperança e inspiração.

‘A Vida do Espírito’ (1973). Mesmo quando estamos “sós com nós mesmos”, somos seres dialéticos porque podemos falar sozinhos, podemos pensar e refletir sobre nossas próprias ações. Somos “dois em um”, ou, nas palavras de Arendt, “todo pensamento, estritamente falando, é elaborado em solidão e é um diálogo entre mim e eu mesmo”. Se formos capazes de nos concentrarmos nesse diálogo interior, não só descobriremos as possibilidades desse frutífero aspecto da solidão para nós mesmos, como também encontraremos novas conexões com os outros: “Esse diálogo de dois em um não perde o contato com o mundo de meus semelhantes porque eles estão representados no eu com o qual mantenho o diálogo do pensamento”.

Conectarmos com nós mesmos e com os outros. Em consequência, o desafio diante de nós é transformar nosso isolamento em uma solidão compartilhada. Como? Pensando, sonhando, lendo, escrevendo e apresentando nossos pensamentos aos demais, como eu lhes estou apresentando os meus. Este intercâmbio é a única coisa que pode proporcionar um contrapeso suficiente à nossa melancolia e nos impedir de cair em depressão. Em todo o mundo, compartilhamos os mesmos medos e as mesmas ameaças, mas também a mesma esperança: de ser capazes de recomeçar depois do coronavírus, e nos comportar e agir de uma maneira muito mais responsável e solidária.

Filósofas Hannah Arendt e Lou Andreas-Salomé. Também é autora de ‘Melancholie’ (Não lançado no Brasil). Esse artigo é parte de uma série de textos de pensadores das mais diversas áreas sobre o futuro após o coronavírus.


FONTE: Brasil Elpais

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