CONFIRA

Mandetta O SUS foi minado - O que vem pela frente

 


Ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (Campo Grande, 1964) está em quarentena laboral. Impedido de assumir outro trabalho durante seis meses por ter exercido cargo de confiança no Governo, segue recebendo o salário de cerca de 30.000 reais. Por ora, divide seu tempo entre escrever um livro contando os bastidores de Brasília durante a pandemia de coronavírus, visitar a fazenda da família no Mato Grosso do Sul e exercer seu hobby de marceneiro. Médico ortopedista e ex-deputado pelo DEM, Mandetta tem participado de várias entrevistas e lives como a que esteve nesta quinta-feira (13) no EL PAÍS nas quais costuma fazer críticas ao Governo principalmente pelas políticas de enfrentamento ao coronavírus.

Vitimou mais de 106.000 brasileiros, oficialmente.Tem pessoas que, quando recebem uma notícia dura, uma notícia ruim na área de saúde, quando o médico diz que ele está com leucemia, ele diz: ‘Eu não acredito nisso. Vou pedir outro exame’”, diz Mandetta que classifica a reação como a fase da negação de um paciente. “A pessoa nega, é natural do ser humano. Na fase seguinte, passa a ter raiva. Eu vi o presidente oscilar entre a fase da negação, que foram essas frases infelizes isso é uma gripezinha e vi ele passar para a fase da ira”, testemunha.

Empresários, médicos e deputados que davam entrevistas sugerindo que o Brasil teria menos de 10.000 óbitos por covid-19, fortalecendo o negacionismo do mandatário. “Ele se aconselhava muito pouco com os ministros. Tinha um aconselhamento paralelo. E, quando você tem pessoas que te aconselham falando o que você quer ouvir, dizendo que você está certo e que isso vai acabar, não escuta a ciência”, diz. “Tentei falar, tentei explicar, entreguei por escrito”, lembra ele. Mas foi voto vencido e sua permanência no Governo ficou insustentável. No dia 16 de abril, anunciou no Twitter sua saída. “Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde”, afirmou.

Ele queria que o ministério saísse dessa doença, ficasse calado, e fosse crítico aos prefeitos e governadores, porque na eleição municipal o ponto principal é saúde”, recorda. “E esse tema ficaria restrito à eleição municipal, e na hora que viesse a fase econômica, ele poderia dizer que estaria lutando pela recuperação econômica porque economia é a pauta presidencial.

Ministério da Saúde, que deveria evitar entrevistas, amenizar os números da pandemia e empurrar a responsabilidade para governadores e prefeitos. A postura do presidente teria apagado a coordenação nacional das políticas de saúde e aberto espaço até para ações “fora da curva”, como por exemplo os chamados kit covid. Algumas cidades passaram a distribuir esses kits de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento incluindo a cloroquina alardeada pelo presidente. “O sistema por parte federal apagou as luzes e se calou. Então vai ter que se reaproximar pra reconstruir um sistema que hoje está à deriva”, diz o ex-ministro.

Teich durante um mês e agora é exercido de forma interina por um militar, o general Eduardo Pazuello foram prejudiciais, mas a troca da equipe técnica do Ministério foi mais grave e deixou o país “sem referência”, além de ter repercutido em ações preventivas de saúde que deixaram de ser tocadas e que podem causar uma explosão de outras doenças no futuro.O que vem pela frente é mais complicado do que o que já ficou pra trás,analisa.

Ex-ministro teria errado ao orientar que as pessoas só buscassem os hospitais quando sentissem falta de ar, no início da pandemia. “Uma crítica vinda dele [Pazuello], eu escuto. Não posso criticá-lo porque eu não entendo nada de militarismo, de paraquedas, de armadilha, de [fuzil] AR15. Se eu fosse fazer uma crítica de que ele não dobra bem um paraquedas, ele ia olhar pra mim e ia dizer: ‘Mas vem cá, você já dobrou algum na sua vida?’ Eu ia dizer, não. Na Saúde é mais ou menos a mesma coisa”, responde.

OMS fizeram com que o mundo ocidental precisasse rever estratégias nos primeiros meses de pandemia. Segundo ele, o coronavírus foi apresentado ao mundo como um vírus lento e, naquele momento, se pensava que fazendo a vigilância e determinando bloqueios seria possível contê-lo. Só quando o vírus ganhou força na Itália, o mundo ocidental atentou para a gravidade do problema. “O nosso SUS se prepara até esse caso da Itália para um vírus lento. Quando a gente vê que ele é um vírus extremamente competente, com velocidade de transmissão muito grande, a gente tem de redimensionar todo nosso sistema”, conta.

Mandetta diz ter acreditado que os Estados Unidos tivessem uma “bala de prata”, seja uma vacina ou um medicamento, mas a queda do sistema de saúde de Nova York logo demonstrou que ela não existia. Mesmo assim, ele diz que Bolsonaro seguiu os passos de Trump no discurso e usou a cloroquina como um atalho para acabar com o distanciamento social e priorizar sua pauta econômica.

Críticas à condução da crise pelo presidente Bolsonaro, o ex-ministro diz não ver um genocídio como alegam denúncias apresentadas ao Tribunal de Haia, mas sim “negligência” e “omissão de socorro”. Indagado se está arrependido de seu voto em Bolsonaro nas últimas eleições, Mandetta diz que não, mas espera não ter de escolher por exclusão em 2022, como o fez em 2018 diante da polarização política. “É impossível para mim hoje ter essa sensação de quero mais com ele [Bolsonaro], porque ele jogou a favor de quem eu mais combato na vida, que é a morte”. O ex-ministro ainda sinaliza que pode disputar as eleições de 2022, mas pondera que a disputa está muito distante.




FONTE: Brasil Elpais

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