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Brasil responde por um terço das mortes

 


Nós fazíamos três, às vezes quatro entubações de pacientes com covid-19 por turno. Eu terminava exausta”, conta. Antes que ela pudesse trocar de roupa e tomar um demorado banho — “de meia hora para limpar bem e reduzir as chances de contagiar o pessoal de casa”— o caçula de quatro anos correu pelo corredor para abraçá-la. “Eu pensei: ‘vixe, e agora?’. Do nada apareceu meu marido e segurou o pequeno de última hora sabe? Ele o abraçou e falou ‘Temos que esperar a mamãe se limpar.” Raimundo Socorro Lopes Lamarão, 51, também enfermeiro, conhecia os perigos da doença que se alastrava pelo país e que eles se empenhavam em combater. O casal, inclusive, se conheceu em um hospital: “Ele foi meu supervisor no começo”, lembra Cristiane.

Trinta deles apenas em janeiro deste ano, de acordo com dados do Conselho Federal de Enfermagem. Raimundo foi internado no começo de agosto e morreu no dia 10 daquele mês. Deixou cinco filhos. Cristiane também contraiu a doença, mas teve sintomas mais leves. “Ninguém ficou bem desde o início da pandemia. Era uma sensação iminente de estar com covid o tempo todo sabe?”, conta. Ela se lembra do dia em que o marido, já se sentindo debilitado pela doença mas sem conseguir ser admitido em nenhum hospital, pediu: “Me tira daqui, eu não quero morrer em casa.” Ela continua atuando como enfermeira, mas deixou de trabalhar em alas para pacientes com o novo coronavírus. “Não consigo mais entrar lá. Me dá um mal estar muito grande.

Covid-19 entre profissionais da área foi divulgado em novembro pelo Conselho Internacional da categoria, e dava conta de 1.500 mortos em 44 países a cifra já deve ter sido superada. “O fato de que o número de enfermeiros e enfermeiras mortos na pandemia seja similar aos que faleceram na I Guerra Mundial é chocante,afirmou Howard Catton, chefe-executivo da entidade durante a divulgação do relatório de óbitos, fazendo um paralelo entre a atual crise sanitária e um dos conflitos mais violentos da história humana.

EPIs chegavam, muitas vezes eram materiais de má qualidade e pouca efetividade, que não protegiam”, explica Eduardo Fernando de Souza, 45, coordenador do Comitê Gestor de Crise Covid-19 do Conselho Federal de Enfermagem e enfermeiro de UTI com 25 anos de experiência. Neste período de escassez também perderam a vida muitos trabalhadores da Saúde devido à falta de um protocolo rígido e claro sobre como atuar em hospitais com leitos para covid-19. “Havia muita contaminação na desparamentação dos profissionais [a retirada dos EPIs], uma vez que não era hábito utilizar todos esses equipamentos, como gorro, face shield, avental e máscara N-95”, diz.

Em 2020, 44.441 enfermeiros, técnicos e auxiliares foram afastados do trabalho e colocados em quarentena após serem infectados pelo novo coronavírus, um número significativo dentro de um universo de pouco mais de 2 milhões de trabalhadores da área. Com a população ignorando medidas básicas de distanciamento social e prevenção à covid-19, os hospitais voltaram a encher no final do ano passado. “Quanto mais paciente de covid-19 nos hospitais, maior o risco para o profissional de saúde. Não tem jeito”, diz Souza.

Muita gente nova foi contratada, existe uma demanda enorme por gente da enfermagem”, afirma Souza. Os novatos, porém, não contam com a experiência dos veteranos que já estão na linha de frente desde março, o que pode trazer riscos adicionais para eles, desacostumados com todos os procedimentos e medidas necessárias de auto-cuidado.

Assustando hoje no Cofen é que estamos no sétimo dia do ano de 2021 e já tivemos 30 novos óbitos, e isso vai aumentar”, diz. Segundo ele, as trocas de gestões municipais, com novos prefeitos e secretários de Saúde assumindo seus cargos e por vezes trocando peças-chave da gestão, pode provocar ruídos nas medidas de prevenção.




FONTE: Brasil Elpais

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