Covid-19 e crianças o que se sabe até agora

 


Está ileso de contrair a covid-19. A situação do país, que encontrou uma nova variante potencialmente mais transmissível, e uma iminente volta às aulas presenciais têm preocupado muitos pais. Mas o que se sabe até agora aponta que o vírus atinge de uma forma muito menos severa crianças e adolescentes. Médicos apontam que a grande maioria deste grupo é assintomática ou apresenta sintomas leves. Mesmo a chamada Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) ―uma inflamação generalizada grave ligada à covid-19 e que causou preocupação nos últimos meses do ano passado― é rara. No entanto, os elevados índices de contágio e o colapso no sistema de saúde em algumas regiões do país soam o alerta porque impactam também sobre este público. É o caso de Manaus, onde o drama da falta de leitos e de oxigênio tem afetado também as maternidades e unidades pediátricas, que têm visto a demanda crescer nos últimos dias diante de um cenário de descontrole da doença.

Os casos pediátricos também são menos graves e têm índices de internação muito menor, com uma evolução clínica mais favorável. Pra gente que é pediatra, é tranquilizador”, afirma o infectologista pediátrico do Hospital Israelita Albert Einstein, Márcio Moreira. Ele diz que o que vê na ponta está de acordo com as pesquisas estadunidenses, que têm apontado que o público infantil representa apenas cerca de 2% dos diagnósticos. Mas lembra que, diante de um aumento geral de casos, é natural que se observe também uma alta nas infecções de crianças, o que começa a repercutir nos atendimentos, especialmente nos adolescentes e jovens.

Moreira, que a define como uma “pontinha do iceberg” pela sua raridade. Esta é uma condição potencialmente grave, que costuma aparecer até quatro semanas após a infecção pelo coronavírus e pode causar uma importante disfunção cardíaca. Entre os sintomas estão febre insistente, sintomas gastrointestinais e manchas na pele. “É uma eventualidade rara e não é algo que deva preocupar o leigo. Nos últimos dois meses, não tivemos nenhum caso no Einstein”, pondera Moreira.

Foram 577 casos notificados, e São Paulo, Pará e Ceará são os Estados que mais registraram suspeitas até o dia 5 de dezembro, data limite do boletim. Dos casos notificados, cerca de 28% apresentavam algum tipo de comorbidade e mais de 60% dos pacientes necessitaram de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Na semana passada, o Rio Grande do Sul confirmou a primeira morte por SIM-P, de um menino de 7 anos que morava na cidade de Alto Feliz.

Sociedade de Pediatria de São Paulo, Marcelo Otsuka. O médico pondera que, embora a covid-19 seja muito menos importante em crianças, pode haver uma alta no número de casos graves neste público se o país continuar com o cenário de descontrole no contágio do vírus por uma “questão matemática”. “Qualquer doença grave sempre acende um alerta. A gente tem que entender que o coronavírus pode ser grave para todos. Hoje, se tem alguém que está cumprindo isolamento são as crianças. Elas estão pegando o vírus dos adultos. Tem que ter conscientização para os adultos não se contaminarem”, aponta.

Crianças necessitando de atendimento hospitalar em pleno colapso do sistema de saúde. Atualmente, existem apenas seis leitos livres de UTI para atender crianças em estado grave na cidade. O número de internações em UTI pediátricas saltou de 3 para 17 em 25 dias. Para internações em leitos clínicos para covid-19 restam 14 vagas, segundo dados da Fundação de Vigilância Sanitária do Amazonas (FVS-AM): do total de 53, 39 estão ocupadas, sendo quatro acima de 20 dias.

UTIs neonatais, além da UTI materna”, afirma a vice-presidente da Sociedade Amazonense de Pediatria (Saped), Adriana Taveira. A entidade emitiu pedido de socorro, juntamente com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) no último dia 19, “às empresas e às instituições públicas e privadas que exerçam a solidariedade por meio de doações que ajudem a contornar as dificuldades”. Segundo os pediatras, em nota, a assistência às crianças e recém-nascidos também está sendo afetada pelo racionamento de recursos médico-hospitalares na capital amazonense.

Desabastecimento de cilindros de oxigênio um problema de proporções trágicas, e cobram dos Governos federal, estadual e municipal a tomada de providências que tragam a normalidade ao atendimento dos pacientes”. Nas maternidades, o número é de 49 bebês dependentes de oxigênio hospitalar em UTIs. A Secretaria de Saúde do Amazonas afirma que as sete maternidades estaduais da capital estão abastecidas e com os níveis de oxigênio sendo monitorados pela área técnica para reabastecer conforme a demanda de cada unidade.

Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) divulgou no último dia 11 de janeiro o registro de 15 casos no Estado. O número pode ser maior, já que todas as notificações foram de pacientes que conseguiram chegar até Manaus para tratamento, onde a estrutura e recursos diagnósticos disponíveis são melhores, conforme admite o próprio Governo. Do total, 11 casos são oriundos da capital e outros três do interior do Amazonas.

Existe um aumento de crianças internadas com diagnóstico de covid-19, mas estamos em uma situação em que os casos de adultos estão muito altos, então não tem número suficiente para afirmar que essa nova onda está internando mais crianças. Uma das hipóteses é que este seja um número proporcional em relação ao número geral de casos de covid-19 que a gente tem”, explica Ana Luísa Opromolla Pacheco, infectologista pediátrica da Fundação de Medicina Tropical – HVD do Amazonas.

Unidades de pronto atendimento indicam um aumento de ocorrências. “Ainda assim são casos infinitamente menores dos registrados em adultos. Hoje acredita-se que exista um espectro de gravidade que vai desde uma forma mais branda, que não necessita de internação, até os que vão precisar de UTI”, completa.

Pacientes mais graves para unidades com UTI e de fluxo de separação para os acometidos por covid-19. Também não há testagem para a doença. “Falta material, os profissionais têm que comprar seu próprio EPI para poder se proteger e preservar os pacientes também. Tem situações de gravidade em que o paciente tem que ser referenciado para outro local, onde tenha um intensivista clínico, mas os profissionais ficam por conta própria”, afirma a presidente da Associação Amazonense de Ginecologia e Obstetrícia (Assago), Sigrid Cardoso. “Todos que são internados deveriam passar por testagem, mas isso só é feito em caso de sintomas”, completa.

Desse total, 4.106.634 foram destinadas às Unidades de Saúde em Manaus que inclui 10 Hospitais, nove SPAs, seis Policlínicas, além de outras 18 unidades, entre maternidades, Centros de Atenção Integral à Criança (Caic), Centros de Atenção Integral à Melhor Idade (Caimi), Fundações de Saúde e Institutos.

Atlas Amazonas, projeto vinculado ao programa de pós-graduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade da Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Crianças menores de 1 ano tiveram uma probabilidade muito maior de virem a óbito em relação às demais faixas etárias de crianças e adolescentes, seja com ou sem comorbidades. A taxa de letalidade é relativa à proporção de mortes em relação aos casos diagnosticados. Em crianças abaixo de 1 ano, esse número é de 1,9% de probabilidade de óbito em casos sem comorbidade. Quando há a presença de alguma doença a taxa sobe para 19,2%. De 1 a 09 anos, a taxa é de 0,5% sem comorbidade e de 3,3%.

Se considerarmos que crianças e adolescentes são em sua maioria acometidos de formas brandas da doença e que não costumam apresentam as comorbidades associadas com pacientes de idade avançada, chama a atenção esse aumento da letalidade nessas faixas etárias”, afirma o estudo. As comorbidades mais frequentes ou com registros em todas as faixas foram as de natureza respiratória, imunológica, cardíaca e cromossômica em crianças e adolescentes confirmados para covid-19 em Manaus em 2020.



FONTE: Brasil Elpais

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