Ancião Juma morre de covid-19

 


120 quilômetros de estrada e a duas horas de barco de sua aldeia. Sua morte, assim como as 1.150 registradas naquele dia em todo o Brasil, foi uma tragédia para seus parentes. Mas Aruká era também o último homem do povo Juma, memória viva de saberes ancestrais e sobrevivente de um massacre para exterminar seu povo. As três filhas que deixa são as últimas de uma etnia que no século XVIII tinha entre 12.000 e 15.000 membros.

Ele e seis outros Jumas sobreviveram a um massacre encomendado por comerciantes interessados na borracha e nas castanhas de suas terras, segundo detalhadas informações do Instituto Socioambiental sobre cada uma das centenas de etnias do Brasil. Cerca de 60 indígenas morreram em 1964, na última tentativa de extermínio em massa sofrida por esse povo, contatado pela primeira vez em meados do século XX. Integrantes do grupo de extermínio contratados pelos comerciantes naquele tempo relataram atirar nos Juma “como se atirassem em macacos.” Em 1930, um enviado das autoridades descrevia os Juma e os povos do entorno assim: “Conhecemos nove grupos, todos inimigos entre si, fazendo guerra e cometendo as piores crueldades com suas vítimas.

243.457 mortos, mais de 10 milhões de infecções e uma taxa de desemprego de 14%. Entre os indígenas que vivem em aldeias uma pequena minoria especialmente vulnerável que habita um vastíssimo território,a covid-19 matou 567 pessoas. A vida desse Juma também oferece um olhar sobre a história dessas comunidades dizimadas desde a colonização portuguesa e que são essenciais para a conservação da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. Fundamentais, portanto, para deter a mudança climática.

Juma que tinha memória das maneiras de caçar, dos modos artesanais próprios de seu povo. Existe um consenso na região, entre os índios Kagwahiva, de sua importância para a memória coletiva”, explica o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em entrevista por telefone. O Kagwahiva é o grupo linguístico ao qual pertencem os Juma. “Ele era reconhecido como um amóe, um título de respeito”, que significa avô em tupi-guarani.

Garimpeiros e os madeireiros ilegais. As principais associações indígenas brasileiras culpam diretamente o Governo por sua morte: “Mais uma vez, o Governo brasileiro se comportou com um grau de omissão criminoso e de forma incompetente. O Governo o assassinou”, afirmam em um comunicado.

Embora a vacinação esteja chegando a aldeias indígenas remotas, existe desconfiança em relação aos profissionais de saúde. E a falta de vacinas ameaça a imunização em todo o Brasil. O Rio de Janeiro teve que interromper a vacinação na segunda-feira.

Que o Ministério da Saúde chama de tratamento precoce. Medicamentos como a cloroquina, cuja eficácia contra a covid-19 não foi comprovada cientificamente, foram transformados por Bolsonaro em política de Governo algo que seu Governo tenta apagar nas últimas semanas. A ponto de envolver as Forças Armadas na fabricação de milhões de comprimidos.

Símbolo da imensa luta que o povo Juma travou”, diz Edson Carvalho, da ONG Kanindé, em entrevista desde Porto Velho, a cidade onde Aruká morreu.

Sintomas em janeiro. Um lugar muito distante de qualquer cidade. A criação dessa reserva indígena de 38.000 hectares foi uma árdua batalha que durou anos. As autoridades não estavam convencidas de que aquele território com um punhado de habitantes merecia a proteção legal que impede a exploração de seus recursos.

Filhas, um cunhado e a esposa deste foram transferidos contra a vontade para os domínios dos Uru-eu-wau-wau, explica o antropólogo, que na época tinha estreito contato com os dois grupos. Lá as filhas se casaram com homens desse outro povo com quem os Juma compartilham a língua. Abandonar seu habitat “teve um impacto muito grande na vida de todos os Juma”, conta Peggion, que acrescenta que o casal mais velho morreu pouco depois da transferência. “Naqueles anos fora do seu território, Aruká ficou muito deprimido, tinha muita saudade do seu território”, diz o pesquisador.



FONTE: Brasil Elpais

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