Draghi esboça reforma europeísta e ambientalista

 


Sobre a situação do país e o plano de reconstrução que tem em mente. Um ambicioso itinerário de tintas social-democratas, progressista e extremamente comprometido com a União Europeia e a OTAN, que não poupou avisos aos navegantes a respeito da Rússia e das tentações soberanistas de alguns partidos da nova maioria governista. A vertente ecológica vertebrará todas as reformas, entre elas as da educação, da Justiça e do sistema produtivo.

Parlamentar, após 12 horas de debate, para se tornar o 30º primeiro-ministro da Itália desde o final da II Guerra Mundial. Mas mencionou imediatamente as agruras que o aguardam no cargo. “Nunca na minha vida profissional tive um momento de emoção tão intenso e com uma responsabilidade tão ampla”, declarou. Tanto que inclusive ele, acostumado à precisão científica, equivocou-se em alguns números da pandemia, logo no início do pronunciamento, demonstrando certo nervosismo inicial.

Vezes mais próximo do relatório anual de um diretor de banco central. O caráter épico do novo Executivo italiano reside, a partir desta quarta-feira, na descrição precisa dos problemas, no trabalho ou no detalhado diagnóstico que o ex-presidente do Banco Central Europeu é capaz de apresentar para confrontar os desafios italianos da próxima década. Esse é o plano: a reconstrução mais ambiciosa do país desde a II Guerra Mundial.

Justiça e o sistema produtivo, onde muitos dos pilares, como o turismo (que representa 14% do PIB), não poderão continuar sendo como antes desta crise sanitária, econômica e social. “Alguns acreditam que sair da pandemia será como acender a luz de novo. Mas não será assim”, alertou Draghi. Mencionou especialmente a questão ambiental, citando o papa Francisco, e atribuiu a propagação do coronavírus às agressões humanas contra a natureza ―“Queremos deixar um bom planeta, não só uma boa moeda”, alertou o outrora guardião do euro. Draghi pediu unidade aos partidos italianos (“Não é uma opção, e sim um dever”), mas os tranquilizou dizendo que não se trata de renunciar à sua identidade, e sim de pensar no bem comum: “O amor à Itália”.

Capaz de adotar tarefas que levariam pelo menos uma década. A Itália receberá 209 bilhões de euros (1,36 trilhão de reais) do fundo de recuperação da UE, a maior soma de todas, depois que redesenhar o defeituoso plano que Bruxelas solicitou e que o Governo anterior não completou. Esse plano definirá o destino dos investimentos nos próximos seis anos, e o novo chefe de Governo procurará pelo menos estabelecer as bases de um esquema que permita “não esbanjá-los”, o que poria em risco o futuro das futuras gerações.

A síntese, em suma, de seu programa. “Às vezes me pergunto se estamos fazendo por eles o mesmo nossos pais e avós fizeram por nós. É preciso perguntar isso quando não fazemos tudo o que é possível pela escola, pela formação, pela universidade ou pela cultura. Uma pergunta à qual devemos dar resposta quando decepcionamos nossos jovens, obrigando-os a emigrar de um país que muito frequentemente não sabe valorizar o mérito e não fez uma efetiva paridade de gênero (...). É uma pergunta que devemos responder quando aumentamos nossa dívida pública [de 135% do PIB]. Cada euro esbanjado hoje é um dano às futuras gerações, uma subtração de seus direitos”, afirmou.

Sem Itália não há Europa. Mas fora da Europa há menos Itália. Não há soberania na solidão. Há só o autoengano. O esquecimento do que fomos, a negação do que poderíamos ser.” Na mesma linha, e tendo ao seu lado, arqueando as sobrancelhas, o ministro do Desenvolvimento Econômico e número dois da Liga, Giancarlo Giorgetti, reafirmou seu compromisso com a OTAN e a “irreversibilidade” do euro para “quem apoiar o Governo”. Um aviso direto a Matteo Salvini, o líder da Liga, que no dia anterior havia dito em relação à moeda europeia que “a única coisa irreversível é a morte”, abrindo a primeira fissura no Governo. Além disso, Draghi traçou claramente o esquema de aliados no mundo e advertiu, pela primeira vez em uma sede parlamentar italiana, sobre as “violações de direitos humanos” quando se referiu à Rússia.

São necessárias políticas econômicas e monetárias expansivas”. O primeiro-ministro, além disso, antecipou várias das reformas que seu Executivo pretende adotar se forem preservados a unidade e “o espírito republicano”.

O sistema tributário é um mecanismo complexo, no qual todas as suas partes estão conectadas. Não é uma boa ideia mudar um imposto ou outro”, apontou, defendendo uma “intervenção total”. Citou como exemplo a reforma dinamarquesa, articulada através de uma comissão que depois trabalhou com os partidos e que reduziu em dois pontos do PIB a pressão fiscal. O mesmo, indicou, se aplicaria às reformas da administração pública e da educação.


FONTE: Brasil Elpais

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