Sem diretriz clara cidades vacinam doulas e terapeutas

 


Aproveitando-se da brecha criada pela ausência de regra, profissionais que não estão na linha de frente como, por exemplo, doulas, que auxiliam mulheres no trabalho de parto, educadores físicos e terapeutas foram vacinados antes de alguns grupos de idosos, os mais vulneráveis a complicações da doença e que, por isso, registram as maiores taxas de mortalidade. A falta de critérios acabou na Justiça, e o Supremo Tribunal Federal já determinou que nos próximos dias o Ministério da Saúde estabeleça quem deve ter prioridade neste momento de escassez de doses. Especialistas criticam a falta de uma diretriz nacional clara e apontam que isso tem criado dificuldades para a estratégia de proteção da população.

77,2 milhões de pessoas dos grupos prioritários estabelecidos inicialmente pela pasta, especialmente se for considerada a necessidade de se aplicar duas doses das vacinas disponíveis. Alguns grupos foram adicionados nas últimas semanas como prioritários após pressão de categorias, mas a pasta não esclareceu exatamente qual seria a ordem de imunização. O grupo dos trabalhadores da saúde está entre os prioritários desde o início. A justificativa é a maior exposição ao coronavírus e a necessidade de manter o atendimento aos pacientes, reduzindo afastamentos. Neste sentido, o Ministério da Saúde indicou em ofício aos Estados a priorização dos trabalhadores envolvidos na campanha de vacinação e na assistência direta aos pacientes com covid-19. E só depois os demais profissionais da saúde. Mas não explicitou, por exemplo, qual deveria ser a ordem de preferência a partir daí, quando ainda não há doses suficientes para todos eles. A pasta deixou que essa priorização seja definida por Estados e municípios conforme as realidades locais.

Imunizações-Regional São Paulo. Ela vê nas decisões uma inversão de prioridades. “As vacinas atuais são muito focadas nos desfechos clínicos de gravidade e morte por covid-19. Temos que focar naqueles grupos que estão sofrendo mais na pandemia, que são os idosos e os profissionais da saúde na assistência direta, que atuam linha de frente”, aponta, ressaltando que isso deve englobar tanto o serviço público quanto o privado. A lógica é proteger essas populações e aliviar a alta pressão sobre os sistemas de saúde neste momento.

Saúde que atuam longe dos hospitais. Biólogos, doulas, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos estão entre profissionais que atuam fora da linha de frente e já receberam vacinas em algumas cidades, quando as doses ainda não chegam massivamente ao grupo mais vulnerável, dos idosos. Dos 39 municípios que formam a Grande São Paulo, por exemplo, ao menos 21 escolheram não priorizar apenas os profissionais de saúde da linha de frente, conforme aponta um levantamento feito pela TV Globo.

Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo publicou nas redes sociais que trabalhadores de uma maternidade foram expostos em um programa de televisão após uma confusão pela falta de vacinas, mas garantiu que seus nomes estavam na lista embora tenham sido tratador como fura-fila. O sindicato pede mais transparência e organização sobre quais profissionais da saúde devem ser vacinados primeiro neste momento.

Ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski deu um prazo de cinco dias para que o Ministério da Saúde defina especificamente quem terá preferência entre os grupos já estabelecidos. “Ao que parece, faltaram parâmetros aptos a guiar os agentes públicos na difícil tarefa decisória diante da enorme demanda e da escassez de imunizantes”, escreveu o ministro. Lewandowski cita notícias que indicam que “não há uma racionalidade nessa primeira distribuição, insuficiente para todos os milhões de brasileiros com perfil de prioridade”.

No entanto, pondera que não é uma tarefa fácil hierarquizar exatamente quais categorias de profissionais da saúde estão mais expostas fora destes espaços, quando fisioterapeutas que atuam com estética, por exemplo, podem também atuar na recuperação de pacientes com covid-19 em atendimento domiciliar. “Os hospitais deveriam ter mandado a lista de quem está em maior risco. E, a partir disso, priorizar os profissionais com mais de 60 anos”, opina. Palmieri diz ainda que o PNI está enviando doses conforme a experiência da campanha da vacinação contra a gripe, que é mais estabelecida e iniciada já com um quantitativo de doses suficientes. Mas a campanha contra a covid-19, aponta, tem particularidades. “A gente não entende porque não vem uma orientação clara”, diz.


FONTE: Brasil Elpais

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