A desigual volta às aulas nos EUA

 


A última vez que pisou em uma sala de aula foi há um ano, e desde então ela se entediou, chorou e ficou frustrada várias vezes como resultado do sistema de ensino remoto a que se viu forçada pela pandemia. Elisa não gosta muito do Zoom, mas a vontade de socializar era maior, por isso, embora as aulas on-line começassem às 9h, ela se conectava meia hora antes para conversar com os amigos, que faziam o mesmo. No recreio, ninguém se levantava das cadeiras. Ela é um dos milhões de alunos que, de costa a costa nos Estados Unidos, esta semana encaram a nova normalidade dentro de uma sala de aula. No entanto, ainda existem dezenas de cidades que continuam com as escolas fechadas, enquanto o fosso social se amplia e a ansiedade das crianças aumenta.

Destaca pela lentidão em comparação com a maioria dos países do outro lado do Atlântico. Os territórios republicanos têm sido mais flexíveis do que os democratas nas diretrizes de saúde que devem ser atendidas para a abertura das portas das salas de aula. É por isso que há Estados como Flórida e Wyoming onde as aulas são presenciais de segunda a sexta-feira há meses enquanto em Maryland ou Califórnia menos de 20% dos alunos podem frequentar uma sala de aula, de acordo com o portal de monitoramento Burbio.

Unidades educacionais, que devem pesar os riscos de contágio, caso abram, e o impacto acadêmico, econômico e social, se não o fizerem. Enquanto isso, os sindicatos de professores exigem garantias de segurança e os pais pressionam para acelerar o processo 12 meses após o fechamento. Quase metade dos alunos vai às aulas toda a semana nos Estados Unidos, liderados pelos menorzinhos: uma medida reforçada por pesquisas científicas que mostram que eles são os menos propensos a propagar o vírus ou sofrer graves consequências se forem infectados.

Ficou evidente como para algumas famílias era muito complexo”, explica Gabriela Hilliger, mãe de Elisa, que considera que a equipe educacional fez um “trabalho titânico e heroico”, mas as autoridades locais ainda não estão à altura da tarefa. Para o retorno às aulas, os pais fizeram uma coleta para a compra de desinfetante e se conformaram que ninguém tire a temperatura dos alunos na entrada. Hilliger, que tem uma criança de três anos em uma creche particular, vê o contraste em infraestrutura e equipamentos com a escola pública de sua filha mais velha. Os especialistas em saúde alertaram em várias ocasiões que as aulas remotas prejudicam desproporcionalmente crianças de famílias de baixa renda, alunos com deficiência e minorias.

Alunos fez uma manifestação para exigir a reabertura total das escolas para o próximo trimestre letivo, que começa no final de abril. As escolas públicas de Washington agora recebem apenas 20% do corpo discente, e algumas podem não reabrir totalmente até setembro. As escolas têm que seguir as diretrizes locais que limitam a capacidade das classes a 11 alunos e estabelecem uma distância de um metro e meio. Os manifestantes pediram a remoção dessas regras, enquanto o grupo de defesa dos direitos dos afro-americanos Black Lives Matter, apontando para a desigualdade, ironizou que os filhos desses manifestantes “devem ter bom acesso a atendimento médico e transporte”.

Recursos limitados, explica que nas comunidades mais carentes as instituições de ensino são o espaço que as crianças têm para contar seus problemas ou onde os educadores detectam problemas como o abuso infantil. “Na tela [os professores] não podem ver isso, não existe esse sistema de apoio”, comenta por telefone. Entre as pessoas que atende, ela viu que muitas mulheres tiveram que deixar o emprego para cuidar dos filhos ou foram demitidas em decorrência da crise. Em outros casos, deixam os filhos aos cuidados dos irmãos mais velhos. “Emocionalmente, isso pode ter limitado o desenvolvimento de habilidades sociais e colocado um freio na aprendizagem acadêmica. Há crianças que perderam oportunidades”, diz a especialista.

31% entre março e outubro de 2020, em comparação com o mesmo período do ano anterior, de acordo com o Centro para Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Estudos mostram taxas mais altas de depressão e ansiedade. Segundo levantamento deste órgão consultivo de saúde, 25,5% dos jovens entre 18 e 24 anos disseram que haviam pensado seriamente em cometer suicídio no último mês. A porcentagem era mais alta do que a dos profissionais de saúde da linha de frente, cuidadores não remunerados de idosos ou os repositores dos supermercados afro-americanos e latinos.

Fevereiro diretrizes para que as escolas, da educação infantil ao ensino médio, voltassem a receber os alunos. “As escolas devem ser as últimas a fechar, depois que todas as outras medidas de mitigação na comunidade tiverem sido adotadas, e as primeiras a reabrir”, observou o órgão. O documento indica que a vacinação dos professores deve ser uma prioridade, mas não um requisito para a reabertura. Alguns sindicatos de professores, insatisfeitos com a orientação do CDC, exigem medidas de segurança em relação à qualidade do ar dentro das escolas.

Metade dos 488 colégios terão todos os alunos cinco dias por semana. Los Angeles, com mais de 600.000 alunos, continua em grande parte com o sistema virtual por causa dos picos de contágio na Califórnia. Na última quarta-feira as autoridades anunciaram que, se os professores forem vacinados e os casos caírem, os menores poderão retornar em meados de abril. E Chicago, após tensas negociações entre a cidade e o sindicato dos professores que ameaçaram entrar em greve,reabriu em fevereiro. Embora os alunos mais novos já possam frequentar as aulas, os do ensino médio ainda não têm data de retorno.

A quinta-feira cruzou a metade desse calendário e o panorama geral deixa sérias dúvidas sobre o cumprimento da meta. Além disso, a Casa Branca enviou mensagens confusas sobre o que considera uma escola “aberta” pode ser de algumas horas, alguns dias ou uma semana inteira de modo que o sucesso dependerá do limite que for escolhido. O presidente democrata confia em que seu plano de ajuda, aprovado na semana passada, vá acelerar o processo e equilibrar a balança entre as escolas públicas e as privadas. As escolas receberão 130 bilhões de dólares (740 bilhões de reais) para o plano de reabertura segura, que inclui a compra de equipamentos de proteção, modernização dos sistemas de ventilação e pessoal médico.


FONTE: Brasil Elpais

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