Impasse entre Sputnik e Anvisa traz ecos da Guerra

 


Vacina chegar no país e chamou a atenção internacional. De supostas conspirações a acusações públicas, subiu a temperatura da crise que caiu como uma bomba especialmente para governadores do Nordeste, que negociam a compra de 66 milhões de doses e agora estão divididos sobre a estratégia de voltar a judicializar a questão. De um lado, já pressionada por um prazo estabelecido Supremo Tribunal Federal para manifestar-se sobre o imunizante, a Anvisa rejeitou a importação de doses da Sputnik V por supostas falhas de segurança. Alegou a ausência de dados e a identificação de outros problemas o mais grave deles a suposta presença de adenovírus replicante no imunizante, o que poderia causar doenças. Do outro lado, veio ferina a reação do Fundo Russo de Investimentos (patrocinador do imunizante), que acusou publicamente no Twitter a agência brasileira de tomar uma decisão contaminada por pressões geopolíticas sob orientação dos Estados Unidos. Por fim, ameaçou processá-la na Justiça por difamação.

Contém vírus replicante capaz de provocar doenças, somam-se as respostas contundentes de técnicos e diretores da agência, que chegaram a divulgar até trechos sigilosos de reuniões com o Instituto Gamaleya, fabricante da Sputnik, nas quais pediam esclarecimentos. “A decisão hoje foi um pouco mais firme, digamos assim, ou expressiva, porque o Estado foi achincalhado no exterior, acusado de veicular mentira, de gerar fake news, de agir sob pressões de potências estrangeiras. Foi ressuscitada a Guerra Fria, uma coisa que já acabou há muito tempo”, disparou o presidente Antônio Barra Torres, em coletiva na quinta-feira (29).

Valor Econômico. Segundo o gerente de medicamentos do órgão, Gustavo Mendes, a documentação fornecida pelo fabricante permitiria uma quantidade de vírus replicante muito maior do que a taxa permitida pelo FDA americano. O Instituto Gamaleya, por sua vez, sustenta que a Anvisa deu “declarações incorretas e enganosas sem ter testado a vacina”. Por conta da pandemia, a agência reguladora brasileira chegou a simplificar o processo para a autorização de uso emergencial de vacinas contra a covid-19, mas alega que a Sputnik V não cumpre neste momento todas as exigências nem apresentou todos os dados solicitados.

Com segurança que era uma vacina segura, com baixos efeitos colaterais”, contou o governador do Piauí e coordenador do grupo de vacinas do Consórcio Nordeste, Welington Dias, após a reunião na semana passada. “Esperamos que eles possam agora tecnicamente responder aos pontos do relatório da Anvisa, que afirma o contrário. Precisamos saber quem está com a verdade.” Por enquanto, o entendimento dos gestores pende na direção de aguardar os esclarecimentos aos questionamentos técnicos da Anvisa antes de forçar uma nova judicialização.

Voltar a avaliar a possibilidade de seu uso no país. Mas não parece perto de acabar a crise em torno do imunizante no Brasil, o primeiro no mundo a rechaçá-lo. A vacina russa já foi aprovada em 61 países. Também na última semana, foi rejeitada pela República Tcheca, que disse não ter dados suficientes para avaliá-la completamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS), cujo posicionamento poderia acelerar a aprovação na Anvisa, estima que apenas em julho deve concluir a análise sobre os dados da Sputnik V, parte deles ainda pendentes, e finalizar a inspeção nos vários parques fabris do imunizante na Rússia. Há mais de dois meses, a Agência Europeia de Medicamentos também avalia o uso emergencial da Sputnik V. A chanceler alemã Angela Merkel chegou a afirmar que ainda há “perguntas sem resposta” sobre o imunizante. Nesta semana, a União Europeia afirmou que a Rússia estaria usando desinformação para acusar o Ocidente de sabotar sua vacina.

Em uma longa nota, afirma que adenovírus replicantes não foram identificados em nenhum lote da vacina, garante que usa uma tecnologia para garantir a purificação do produto e nega que a equipe da agência tenha enfrentado dificuldades para inspecionar as fábricas na Rússia, como havia pontuado a Anvisa na reunião de cerca de cinco horas na qual rechaçou, por unanimidade, o imunizante.

Não conseguiu dados brutos dos testes clínicos. A pesquisa também teria alguns furos de protocolo por não definir concretamente quais sintomas deveriam ser observados para identificar infecções. Sem esses critérios claros, o cálculo de eficácia pode perder credibilidade. A Sputnik V foi a primeira vacina contra a covid-19 registrada no mundo. Dados apresentados para a revista científica The Lancet indicam uma eficácia de 90% do imunizante. “Avaliação sanitária é diferente da feita por uma revista científica. A sanitária precisa ter acesso a todos os dados brutos”, argumenta Gustavo Mendes. Sem as informações técnicas, ele diz que é difícil validar a metodologia e os resultados do ensaio clínico do imunizante.

Acionaram até a Justiça para conseguir trazê-las. O imunizante ganhou também um forte lobby de parlamentares em Brasília e foi até apelidado de “vacina do Bolsonaro”. O Ministério da Saúde negociou a compra de 10 milhões de doses, mas o titular da pasta, Marcelo Queiroga, defende a reputação internacional da Anvisa e diz que aguardará o posicionamento da agência para tomar decisões. “Assim que a Anvisa aprovar, [a Sputnik V] será incluída no Plano Nacional de Imunizações”, afirmou o ministro na sexta-feira. Pelos governadores, não está descartada a possibilidade de voltar a acionar o STF para tentar fazer as doses serem autorizadas no país, mas este passo só é considerado para mais adiante.


FONTE: Brasil Elpais

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