Wajngarten liga Bolsonaro a omissão na compra da vacinas

 


Pandemia elevou a temperatura dos debates no dia mais tumultuado da comissão até agora. O que era para ser um movimento calculado pelo Planalto com um fiel defensor do presidente o isentando de culpa na gestão da crise de covid-19 acabou sendo um tiro que saiu pela culatra. Fabio Wajngarten foi ameaçado de prisão pelo relator Renan Calheiros depois de mentir e se contradizer ao longo de quase dez horas de depoimento. De quebra, o ex-secretário especial de Comunicação acabou por colar em Jair Bolsonaro parte da culpa por ter ignorado uma oferta de vacinas da Pfizer no mês de setembro do ano passado. A falta de investimentos em imunizantes por parte do atual Governo é uma das principais linhas da acusação na CPI liderada por Calheiros.

Seguinte ele concedeu uma entrevista à revista Veja na qual atribuiu a condução equivocada da pandemia de coronavírus à equipe do Ministério da Saúde que era comandada pelo general Eduardo Pazuelllo. Foi por causa desta entrevista que ele foi convocado como uma espécie de homem-bomba capaz de complicar o Governo. Inicialmente, suas falas iam no sentido de blindar Bolsonaro e, surpreendentemente, também Pazuello. Por fim, depois de tantos questionamentos, ele acabou confirmando a trama envolvendo a Pfizer.

O documento fora entregue a seis pessoas: o presidente Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão, ao embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Foster, e aos então ministros Paulo Guedes (Economia), Eduardo Pazuello (Saúde) e Walter Braga Netto (Casa Civil). A carta ficou sem qualquer resposta formal até 9 de novembro, quando Wajngarten ficou sabendo por intermédio do dono da emissora RedeTV!, Marcelo de Carvalho, que a Pfizer ainda esperava qualquer manifestação do Governo.

CPI nesta quarta. No mesmo dia 9 de novembro, pouco tempo depois de enviar a mensagem, recebeu uma ligação de Carlos Murillo, então gerente-geral da farmacêutica no Brasil. De acordo com o que contou à comissão, ele levou o telefone ao gabinete do presidente Bolsonaro, que estava em reunião com o ministro Paulo Guedes e ambos conversaram com Murillo. “O presidente foi informado no primeiro momento”, disse o ex-secretário. Nenhum deles justificou a razão de não terem dado resposta alguma. Guedes, teria dito apenas que esse era “o caminho” e Bolsonaro, reforçado que qualquer imunizante seria comprado desde que aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Discutido por Wajngarten será confrontado com os dados da farmacêutica Pfizer. Serão ouvidos pela CPI o presidente da farmacêutica na América Latina, o chileno Carlos Murillo, que até novembro do ano passado era o gerente-geral da companhia no Brasil, e a sucessora dele neste cargo, a espanhola Marta Díez.

Embasam duas das linhas de investigação que a CPI quer apontar, a de que Bolsonaro não comprou imunizantes com antecedência, diante da falta de respostas à oferta da Pfizer, e que insistiu na tese de que os brasileiros estariam protegidos diante de uma imunidade de rebanho, ao desincentivar medidas de restrição de circulação por meio propaganda governamental. Este segundo caso, acabou gerando um pedido de prisão por parte do senador Renan Calheiros (MDB-AL), o relator da CPI.

Existência de uma peça publicitária intitulada “O Brasil não pode parar”, que estimulava as pessoas a trabalharem presencialmente, mesmo com a pandemia. O vídeo chegou a ser publicado em perfis da Secretaria de Comunicação em redes sociais e no site oficial do Governo, mas diante da repercussão negativa e antes mesmo de uma proibição assinada pelo ministro Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, acabou apagada.

Autorização para ser divulgado. Por fim, depois de tantas idas e vindas, afirmou que, de repente, lembrou-se que o ministro da Luiz Eduardo Ramos, que era seu superior hierárquico na Secretaria de Governo, divulgou o vídeo para um grupo de ministros. “Pelo que entendi, ele [Ramos] disparou para o grupo de ministros e, de lá, eu não sei mais o que aconteceu.

Ao longo da tarde, o ex-chefe da Comunicação ainda cometeu ao menos mais duas contradições. Primeiro, ele disse que teve três reuniões presenciais com representantes da Pfizer em Brasília e que todas constavam de sua agenda pública oficial, quando na verdade, não estavam. A segunda, quando afirmou que não negociou a compra das vacinas com a farmacêutica, e tampouco que sabia de valores a serem pagos pela dose dos imunizantes. Na entrevista à Veja, contudo, ele sinaliza que teve acesso aos preços cobrados pela empresa.

Os diretores da Pfizer foram impecáveis. Se comprometeram a antecipar entregas, aumentar os volumes e toparam até mesmo reduzir o preço da unidade, que ficaria abaixo dos dez dólares. Só para se ter uma ideia, Israel pagou 30 dólares para receber as vacinas primeiro”, afirmou Wajngarten à revista semanal.

CPIs, as testemunhas não podem mentir ou se negarem a responder a questionamentos, apenas investigados podem. Quando o clima esquentou, já no fim da tarde, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), apareceu para tumultuar e criar uma narrativa para sua fervorosa militância de sua família nas redes sociais. “Imagina um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros”. A fala de Flávio acabou sendo reproduzida pelo perfil oficial de Bolsonaro....



FONTE: Brasil Elpais

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