Falta de critério único para a fila da vacina dificulta o controle

Diferentes critérios para vacinar os grupos prioritários, o que dificulta no acompanhamento preciso dos dados do país. Essa é uma das conclusões que se pode tirar de um levantamento feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre a situação da campanha de vacinação no Brasil. Os dados levavam em consideração os vacinados até o dia 18 de maio. Mas há ainda outro percalço com o qual o Brasil não têm conseguido lidar com eficiência: o elevado índice de pessoas que já tomaram a primeira dose, mas não retornam para a segunda neste sábado, o Estado de São Paulo realizou um mutirão de vacinação, com 5.000 postos de vacinação abertos, para tentar alcançar os 440.000 paulistas que já deveriam estar completamente vacinados mas não o fizeram. Até este domingo, pouco mais de 48 milhões de brasileiros haviam recebido a primeira dose (cerca de 23% da população) do imunizante contra o coronavírus e quase 23 milhões (10,8%) receberam a segunda.

Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), determinou quais grupos deveriam ter prioridade para tomar vacina, mas não estabeleceu regras precisas para cada um deles, deixando a decisão sob responsabilidade de Estados e municípios. Com isso, há locais que já estão vacinando, por exemplo, todas as gestantes e lactantes. Enquanto outros só estão disponibilizando o imunizante para as grávidas com comorbidades.

Campanha de vacinação, ainda em janeiro deste ano, por conta da maior exposição ao vírus. O levantamento mostra que, até 18 de maio, 36% desses profissionais ainda não haviam sido imunizados com a segunda dose em todo o país. O que explica? “A definição de profissional de saúde foi sendo utilizada no âmbito dos municípios de forma muito variada”, explica o médico epidemiologista Daniel Loureiro Werneck, pesquisador do Instituto de Medicina Social da UERJ e do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ. Werneck é um dos coordenadores do estudo, ao lado de Ligia Bahia e Jéssica Pronestino de Lima Moreira, também da UFRJ, e de Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Profissionais de saúde”, mas não precisou qual a ordem, dentro deste grupo, que Estados e municípios deveriam seguir para a vacinação, diante de uma quantidade de doses limitada. Com isso, houve Estados e municípios que adotaram uma regra ampla e incluíram logo na primeira leva profissionais como doulas, educadores físicos, veterinários ou biólogos, além de pessoas já aposentadas que não estão na linha de frente do combate à covid-19. Por outro lado, alguns lugares deixaram para vacinar profissionais da saúde mais jovens apenas agora. 

Segunda dose ainda não tenha sido dada”, argumenta. Uma parte, além disso, pode ter sido imunizada com a vacina da AstraZeneca/Oxford, que requer um intervalo de 90 dias entre a primeira e a segunda dose. “Se parte deles foi vacinada em abril ou maio [porque o calendário do município assim determinou], ainda não deu tempo de tomar segunda dose”. São necessárias duas doses para alcançar o grau de proteção contra o coronavírus previsto pelos imunizantes.

6,5% da população com comorbidades abaixo de 60 anos menos de dois milhões de pessoas haviam recebido até 18 de maio a primeira dose da vacina. Esse grupo, composto por quem possui doenças pré-existentes ou alguma deficiência, é estimado em pelo menos 31 milhões de pessoas no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE, de 2019.

Ministério da Saúde considerou, em sua primeira contagem, que essa população era de 17,7 milhões de pessoas. Depois, em 26 de abril, passou a considerar 28 milhões. São várias estimativas que tornam, mais uma vez, difícil acompanhar o ritmo da vacinação no plano nacional. “Mais uma vez, os critérios locais e a ordem de prioridade são muito variados, o que leva a muitas desigualdades e variações na cobertura”, explica Werneck. Além disso, há falta de clareza sobre se determinadas condições físicas e de saúde se enquadram, de fato, nos critérios estabelecidos.

Atestado médico, prontuários, registros de informações, entre outros das comorbidades definidas como prioritárias. Além disso, prossegue o texto, este tipo de sistema acaba privilegiando pacientes da rede privada, com mais facilidades para obter atestados e relatórios médicos. Reportagem publicada no EL PAÍS no mês passado conta casos de médicos recebendo pedidos de receita e atestado para pacientes saudáveis, que buscam furar a fila. No início de junho a Prefeitura de São Paulo anunciou que passaria a reter os atestados médicos nos postos de vacinação para coibir tentativas de fraude.

Cabe a cada Governo estabelecer a ordem da vacinação de cada grupo, de acordo com o que considera mais importante. A Bahia, por exemplo, incluiu jornalistas e lactantes entre segundo e o 12º mês pós-parto,ambos a partir de 40 anos, entre os que já podem receber imunização. Além disso, os municípios que avançam mais rapidamente na vacinação dos grupos prioritários que incluem trabalhadores do transporte e da educação, entre outros já podem reservar 30% das doses recebidas para vacinar pessoas saudáveis entre 59 e 18 anos, de forma escalonada.

Os números indicam que mais de 4,5 milhões de pessoas que tomaram a primeira dose da Coronavac até 18 de maio não haviam recebido a segunda dose, mesmo após os 28 dias preconizados entre uma dose e outra. Com relação aos imunizados pela vacina da AstraZeneca/Oxford, mais de 590.000 pessoas ainda não haviam tomado segunda dose, considerando o intervalo de 90 dias entre as duas aplicações. Além disso, 45% dos idosos com mais de 80 anos ainda não haviam completado a segunda dose. A cifra vai para 30% quando considerados os idosos de 70 a 79 anos.

Seguiram o protocolo do Ministério da Saúde e não guardaram imunizantes para a segunda aplicação. “Mas acho que o principal é que as pessoas se atrasam por conta própria. Se você não fica em cima, se não há uma campanha de comunicação reforçando a necessidade da segunda dose...”, argumenta. “É preciso fazer uma busca ativa e ter estratégia de captação dessas pessoas, porque senão é como se você tivesse jogando fora a vacina.

Essas narrativas não repercutiram em uma estratégia territorializada para conter a disseminação da doença”. De acordo com os autores, “a narrativa que associa a covid-19 a determinados territórios tem apenas o efeito de naturalizar as mortes causadas pela doença”. Chamam atenção para o fato de que, apesar de os atuais critérios englobarem todas as classes sociais, não existe qualquer política para acelerar a vacinação das camadas mais pobres e mais afetadas pela pandemia. “Mesmo com o reconhecimento da vulnerabilidade, não há adoção de políticas dirigidas especialmente para estes grupos e muito menos sua inclusão nas prioridades de vacinação”, explica a pesquisa.



FONTE: Brasil Elpais

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